Quarta-feira, 9 de Junho de 2010

Cogito...

IMG_0463.jpg

(Canon EOS 400 D; Sigma 18-200 mm; 1/400 s; f/13; 18 mm; ISO 400)

      «O Céu é mais ou menos como as pessoas diziam que seria: grandes jardins repletos de fauna e flora, anjos com harpas e um clima como o de San Diego. Mas quando lá chegamos ficamos surpreendidos com o estado de degradação em que tudo se encontra. Os jardins crescem desordenadamente. Os anjos estão magros, sentados em cobertores, com pequenos copos de papel nas mãos para pedir esmolas, em frente das harpas amolgadas. Tocam uma canção breve quando passamos por eles. O dia está quente mas o céu está cinzento com tanto nevoeiro e fumo.

 

      Deus não está lá. Corre o boato de que Ele saiu há muito tempo, dizendo que voltava já.

 

      Algumas pessoas defendem que Deus não tem planos para regressar. Outros dizem que Deus enlouqueceu; outros acham ainda que Ele gosta de nós mas que foi chamado a criar outros universos. Alguns dizem que Ele está zangado, outros que tem Alzheimer. Há quem diga que Deus está a dormir a sesta e quem ache que anda em festa. Uns dizem que Deus não se preocupa connosco; outros dizem que gostava mas que morreu. Há também quem diga que não faz sentido perguntar para onde é que ele foi, uma vez que pode nunca ter estado presente. Talvez tenham sido os extraterrestres, e não um deus qualquer, quem construiu este lugar. Alguns questionam-se se não devemos a nossa existência depois da morte a uns quantos princípios científicos que ainda não somos capazes de entender. Outros prevêem que Deus regressará a qualquer momento; salientam que os Seus dias correspondem aos nossos milénios e que talvez Ele tenha ido apenas dar um passeio vespertino.

 

      Seja qual for o motivo que está na origem da sua ausência, o jardim não demorou muito tempo a degradar-se e transformar-se numa verdadeira selva. As pessoas tomaram beligerantemente partido sobre as teorias do desaparecimento e os debates erguem-se no ar como rastos de fumo negro. A certa altura, alguém encontrou uma pegada de Deus num recanto afastado do jardim e tentou imediatamente datá-la através da análise de carbono, mas ninguém concorda no que diz respeito aos resultados.

 

      Então, uma coisa incrível aconteceu. Alguém começou a armar zaragatas, alguém começou a disparar tiros, alguém começou a detonar bombas e a guerra deflagrou nas planícies sagradas do Céu. Os recém-chegados são enviados directamente para os campos de treino para aprenderem a manejar armas. A vida depois da morte, como qualquer pessoa que aqui esteja lhe dirá, já não é o que era. Ao ascendermos, trouxemos a frente de guerra connosco.

 

      As novas guerras religiosas não têm como ponto central a definição de Deus, mas sim o Seu paradeiro. As Novas Cruzadas planeiam ataques contra aqueles infiéis que acreditam que Deus está prestes a regressar; as Novas Jihadis bombardeiam aqueles que não acreditam que Deus tem outros universos para cuidar; a Nova Guerra dos Trinta Anos deflagra entre aqueles que acreditam que Deus está fisicamente debilitado e aqueles que consideram a noção de fragilidade profana. A Nova Guerra dos Cem Anos estala entre aqueles que concluem que Ele nunca existiu de facto e os que acham que está num retiro romântico com a Sua namorada.

 

      É esta a história. É por isso que estamos agora debaixo desta árvore caduca, com o ruído das metralhadoras a ecoar nos ouvidos, o nariz a arder por causa do Agent Orange, os disparos das bazucas a iluminar a noite, fincando os dedos no solo impregnado de sangue, enquanto as folhas caem em nosso redor e nos batemos com fidelidade pela nossa própria versão da não existência de Deus.»

 

David Eagleman in Cogito ergo sum. Editorial Presença.

 

Publicado por Fernando Delgado às 00:15
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