Segunda-feira, 10 de Maio de 2010

... limpe a chaminé...

«[…]           

     - Por favor, limpe a chaminé sobre a paixão e a vida – incitou Nietzsche.

            - Uma das minhas pacientes é uma parteira – prosseguiu Breuer. – Está velha, encarquilhada, sozinha. Sofre de problemas cardíacos. Mesmo assim, está apaixonada pela vida. Certa vez, perguntei-lhe a fonte da sua paixão. Respondeu-me, então, que era o momento entre erguer um recém-nascido silente e o dar-lhe a palmada da vida. Ela renovava-se, assim dizia, pela imersão naquele momento de mistério, aquele momento entre a existência e o esquecimento.

            - E consigo, Josef? O que se passa?

            - Sou como a tal parteira! Quero estar próximo do mistério. A minha paixão por Bertha não é natural; é sobrenatural, sei disso, mas preciso de magia. Não consigo viver a preto e branco.

            - Todos precisamos de paixão, Josef – interrompeu Nietzsche. – A paixão dionisíaca é a vida. Mas a paixão tem que ser mágica e aviltante? Não haverá uma forma de dominar a paixão? Deixe-me falar sobre um monge budista que conheci o ano passado em Engadine. Vive uma vida frugal. Medita durante metade das suas horas de vigília e passa semanas sem trocar uma palavra com ninguém. A sua dieta é simples: uma única refeição por dia, aquilo que conseguir que lhe dêem, talvez apenas uma maçã. Mas medita sobre a maçã até esta prenhe de vermelhidão, de suculência e de vivacidade. Ao fim do dia, apaixonadamente, antecipa a sua refeição. A conclusão é, Josef: não precisamos de renunciar à paixão, mas temos que mudar as nossas condições para a paixão.

            Breuer concordou, com um movimento de cabeça.

            - Prossiga – exortou Nietzsche. – Limpe mais a chaminé sobre Bertha… o que significa ela para si.

            Breuer fechou os olhos.

            - Vejo-me a correr com ela. A fugir. Bertha significa fuga, fuga perigosa!

[…]»

 

Irvin D. Yalom in Quando Nietzsche Chorou. Edições Saída de Emergência.

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Publicado por Fernando Delgado às 01:18
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