Terça-feira, 16 de Março de 2010

Joana Bértholo

(Este livro é uma boa surpresa!...)

 
«[…]
Aquela que vê o futuro, a que sabe o que os outros não sabem, ou fingem ter esquecido. A sua beleza, o seu cabelo vinho tinto, o seu sorriso, a sua brisa e a sua voz, vocalizando sempre aquilo que o peito quer ouvir.
Karenyina é para esta gente como uma terceira rodada de vodka, uma sopa compacta, uma fatia de pão, um abraço comovido, num cenário assim. Devem haver mulheres destas em todos os cenários de guerra e deploração. Planta-as lá o universo para que os homens não desistam, para que os olhos se ergam do chão, para que se lembrem do que é a vida,
* o aroma das mulheres,
* a leveza das crianças
* as imagens dos anos na catedral,
* o abraço de um camarada,
* o nosso nome dito com respeito,
* uma noite sem tiros,
* um pedaço de pão partilhado entre muitos,
* um cão que nos encontra e nos lambe a cara quando nos escondemos a chorar,
* uma voz de soprano a cantar no meio da madrugada,
* a teimosia de uma rosa vermelha que insiste em desabrochar por entre um manto de neve branca,
 
E de quão bela pode ser.
 
Uma colheita abundante busca aquele que, perante o terceiro rio, sabe compreender como a água deseja voltar para trás.
(…)
Benjamim é um virtuoso. Ou até a própria virtude.
Benjamim é parte de uma orquestra prussiana que cada dia toca o mesmo tema, numa repetição ad infinitum d’O Crepúsculo dos Deuses. Todos os dias, o mesmo tema. Será que ensaiam, ou aquilo fortifica-lhes um sentimento de segurança? Será que praticam, ou têm medo de aprender algo de novo? Descobrem ou relembram?
Wagner não só compôs a música que a trompa de Benjamim toca, como compôs a própria trompa. Pode até ser que se olharmos bem para cada canto e cada personagem da sua extensa obra, pode até vir a ser que descubramos que foi Wagner quem compôs Benjamim.
É o exército prussiano que finalmente populariza a trompa que Wagner compôs. Populariza também a música que Wagner compôs para a trompa que Wagner compôs. As tropas gostam de marchar ao som daquela larga e arrogante nota que só a trompa sabe. As tropas gostam do som e o som gosta da guerra. Ou é a guerra que gosta do som. Numa guerra, o silêncio não é sinal de paz, mas de morte, ou de antecipação. Mykhaylo já o sabia, pequenino a contar os sons das explosões até adormecer.
[…]»
 
Joana Bértholo in Diálogos Para o Fim do Mundo. Caminho.
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Publicado por Fernando Delgado às 00:44
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