Terça-feira, 23 de Fevereiro de 2010

O primata

(Que pena não ter tempo para ler este livro de enfiada!...)

 
«[...]
Estou a usar o primata como uma metáfora para uma tendência que existe, em maior ou menor grau, em todos nós. Nesse sentido, alguns humanos são mais primatas do que outros. O "primata" é a tendência para compreender o mundo em termos materiais: o valor das coisas é medido por aquilo que são capazes de fazer pelo primata. O primata é a tendência para ver a vida como um processo de calcular probabilidades e de avaliar possibilidades e usar os resultados desses cálculos a seu favor. É a tendência para ver o mundo como uma colecção de recursos; coisas que podem ser usadas para os seus objectivos. O primata aplica este princípio a outros primatas tanto quanto, ou mais ainda, o aplica ao resto do mundo natural. O primata é a tendência para ter não amigos mas aliados. O primata não vê os seus colegas primatas; observa-os. E enquanto o faz, aguarda a oportunidade de se aproveitar deles. Para o primata estar vivo é estar à espera de atacar. O primata é a tendência para basear as relações com os outros num único princípio invariável e implacável: o que podes fazer por mim e quanto é que isso me vai custar? Essa percepção dos outros primatas acaba por se virar contra o próprio, contagiando e comunicando a visão que o primata tem de si próprio. Consequentemente, ele considera a felicidade como algo que pode ser medido, pesado, quantificado e calculado. E encara o amor da mesma forma. O primata é a tendência para pensar que as coisas mais importantes da vida se resumem a uma análise de custo-benefício.
(...)
Todos nós, acho, somos mais primatas do que lobos. Em muitos de nós, o lobo foi praticamente suprimido da narrativa das nossas vidas. Mas o risco é todo nosso se deixarmos o lobo morrer. No final, as artimanhas do primata não dão em nada; a sua esperteza um dia trai-nos e a sorte macaca um dia acaba. A seguir, é quando se descobre o que é importante na vida. E não tem nada que ver com o que os estratagemas, a esperteza e a sorte nos proporcionaram; é o que resta quando tudo isso acabou. Somos muitas coisas. Mas o eu mais importante não é o que conspira; é aquele que fica quando as conspirações falham. O eu mais importante não é o que se delicia na sua artimanha; é o que fica quando as artimanhas o deixam para morrer. O eu mais importante não é o que goza a sua sorte; é o que continua quando a sorte se vai embora. No fim de tudo, o primata há-de sempre falhar-nos. A pergunta mais importante que podemos colocar a nós próprios é: quando isso acontecer, quem é a pessoa que resta?
(...)
A evolução funciona por camadas. Na evolução não existe tábua rasa, nem começar de novo: a evolução trabalha apenas a partir do que existe e nunca volta à estaca zero. Assim, recorrendo ao exemplo dos antepassados, as características grotescas do linguado -cujos olhos foram basicamente puxados para o lado oposto -comprovam que as pressões da evolução, que levaram um peixe a especializar-se em deitar-se no leito do mar, actuaram sobre um peixe que originalmente se tinha desenvolvido para outros objectivos, pelo que tinha os olhos situados na superfície lateral e não na dorsal. Da mesma forma, no desenvolvimento dos seres humanos a evolução foi forçada a trabalhar a partir do que havia. Os nossos cérebros são essencialmente estruturas históricas: foi nas fundações de um sistema límbico primitivo (que partilhamos com os nossos antepassados répteis) que foi desenvolvido o neocórtex -a versão cinzenta que é característica dos seres humanos.
(...)
Às vezes é preciso deixar falar o lobo dentro de nós; para silenciar o interminável palavreado do primata.
[...]»
 
Mark Rowlands in O Filósofo e o Lobo. Lua de Papel.
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Publicado por Fernando Delgado às 00:57
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