Terça-feira, 9 de Fevereiro de 2010

Francisco José Viegas

«[...]
HÁ QUANTOS ANOS PERCORRE O MESMO CAMINHO, PELA NOITE FORA, ATÉ CHEGAR AQUI? Talvez há vinte anos, desde que um futebolista morrera à porta do bar e ele viera identificá-lo e começar uma investigação sobre o Grande Inverno – o tempo das chuvas, o tempo do frio, o tempo. Desde então, quantas vezes falhara? Muitas. «Falhar, tentar de novo, fracassar melhor», era uma divisa sem nada de extraordinário, mas era a sua divisa – até não restar nada ou quase nada. Muitas vezes Rosa vinha buscá-lo e interromper uma conversa com Jorge Alonso, o dono do bar, o incorrigível irlandês. Tão incorrigível irlandês como Texas Jack era o incorrigível justiceiro ou Phílip Marlowe o incorrigível detective e ele próprio o incorrigível inútil. A vantagem sobre todos eles era a de não se levar a sério e de apenas querer sobreviver mais uns anos, a de querer que o tempo passe e que Rosa o venha buscar,
embora, se possível, sem interromper nenhuma conversa com Jorge Alonso.
            «Cerveja e pecado, meu amigo. É a única associação que se pode fazer», Jorge Alonso sentado ao balcão do andar superior.
            «Que veio fazer aqui?»
            «Vim ver o bar, tinha saudades. À medida que se envelhece há mais saudades. Os velhos têm mais saudades. E depois adormecem felizes.»
            E sorriu, o cotovelo Poisado sobre uma pilha de jornais em inglês. Jaime Ramos sentou-se no banco ao lado:
            «Cerveja e pecado. Veio beber?»
            «Já não bebo há muitos anos, você sabe. Há muitos ano não faço uma série de coisas.»
            «Já escreveu o testamento?»
            «Já. Deixo-lhe várias caixas de whiskey. Tudo Tullamore que agora está em saldo. Vai ter bebida para muitos anos, se não forçar muito.»
            «Vou ser moderado na bebida.»
Jorge Alonso levantou-se e enrolou os jornais, que guardou debaixo do braço.
            «O meu médico exige que me deite cedo. E eu deito. O Outono é a estação da obediência.»
 
[...]
           
            Alonso vestira o casaco e desceu as escadas do bar, deixando-o sozinho, a pedir uma cerveja clássica, vagamente amarga, apenas vagamente – uma ruiva. «As ruivas fazem parte da minha história pessoal», podia dizer. A ruiva pecaminosa, a ruiva desvairada, a ruiva turbulenta, a ruiva obsessiva que atravessa o palco em busca da tempestade, a ruiva dos filmes, a ruiva dos livros. Não sabia se era mesmo assim: tinha conhecido ruivas angélicas. E gostava de cervejas ruivas, despedindo-se do caramelo, deixando escorrer gotas de água pelas paredes exteriores do copo. Gostava de estar ali, no Bonaparte, que agora a filha de Jorge Alonso comandava. E gostava de quando Rosa vinha ter com ele e se sentava para fumar uma das suas cigarrilhas finas - até para o lembrar de que talvez haja amor para além das mortes que ele coleccionava, e de que não devia cair na tentação de ter pena de si mesmo, como acontecia com os homens de meia-idade. Falhar, tentar de novo, fracassar melhor, mas sem misericórdia, sem nostalgia, sem nada. Olhou, pela janela, para o mar da Foz, o mar da praia dos Ingleses – e viu a chuva a cair sobre as árvores que ainda resistiam ao salitre. Tinha visto a chuva no Vidago, a duzentos quilómetros dali. Mas só agora chegava à Foz, inaugurando o Outono, a estação da obediência.
[...]»
 
Francisco José Viegas in O Mar de Casablanca. Porto Editora.
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Publicado por Fernando Delgado às 00:53
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