Quarta-feira, 2 de Dezembro de 2009

Lobo Antunes

(Há pessoas que contam histórias magistralmente…, Garcia Marques… Mas não é isso que me interessa. Não me interessa contar histórias… O que me interessa é estar mais perto do coração da vida!

António Lobo Antunes, em entrevista à RTP1 e aqui referida)
 
 
«[…]
«Vieram dizer-me que a minha mãe estava a morrer e por respeito à morte tirei o dedo da gengiva embora nunca tenha visto ninguém morrer nem saiba o que é morrer, sei que diante dos caixões se fala em voz baixa e nos movemos devagar, mais educados, mais compostos, cumprimentando-nos num sorriso triste e depois ficamos ali de mãos dadas connosco mesmos, à frente ou atrás das costas
(são as únicas alturas em que damos a mão a nós mesmos como se fôssemos uma pessoa diferente e somos uma pessoa diferente porque os dedos que apertamos estranhos e a gente mirando-os à socapa a perguntar
- Parecem meus mas são meus?
encolhemos um ao acaso, sentimo-lo mover-se e o que prova isso conforme nada prova o anel, a pulseira, o que não falta são anéis e pulseiras, serei uma, serei duas, serei uma criatura que não tem a ver com qualquer delas ou comigo, devolvam-me a mim por caridade, se calhar é isto o que a morte significa, onde estou eu?)
de mãos dadas à frente ou atrás das costas e as cadeiras contra a parede preenchidas por velhas de lenço no punho juntamente com o terço e este lenço pertence-me, este terço pertence-me, estas mãos são as minhas, metade das velhas cochicha para a outra metade e a metade que recebe os cochichos fecha os olhos a acenar que sim e abre-os depois do sim cochichando por seu turno, o cabelinho arranjado com ganchos que esta madeixa solta-se, os queixos ossudos, pernas em que se enrolam varizes, um dente pronto a morder o ar se nos apanham
- Esta é qual?
a que recebe o cochicho a escancarar o olho de súbito não nevoento, agudo, e quando o olho esmorece a tornar-se a ruga que era
(acontece-me pensar que em vez de rugas pálpebras, dúzias de pálpebras nas bochechas, na testa)
- A filha que se droga e só lhe deu desgostos
e uma conta de terço a somar-se às que tinham, a Mercília disse que a minha mãe morria às seis horas
(os joelhos das velhas num montinho de ossos soldados sob a saia, regam as flores com uma chávena ou seja regam o chão, não o vaso e não nascem caules do soalho)
achava-me eu na despensa a aquecer a colher com o pó e no postigo junto ao tecto, onde bolor, a chuva
(lembro-me de uma prima da minha avó que me chamava Micaela, não Ana
- Ofereço-te um periquito no Natal Micaela
eu não suporto pássaros, pega-se-lhes e o coração, de tão frágil, dá medo, cinco minutos depois a prima a coçar-se perplexa
- O que é que eu disse há bocado?
a livrar-me do medo)
a chuva menos melancólica em Lisboa que na quinta onde só existem azinheiras e gado, nunca entendi se eram as árvores ou os toiros que os empregados do meu pai conduziam porque tudo a galope e o meu pai com galhos, não braços, a saírem das mangas
- Rápido rápido
a chuva menos melancólica aqui e eu a chover também, eu com suores, eu com febre, se o pó não demorar a aquecer as azinheiras e o gado abrandam e curo-me, sentia a Mercília no corredor, duas bengalas e dois sapatos a deslocarem-se num vagar de lagosta não mencionando as antenas, as pinças
- Em que bicho te tornaste Mercília?
 
[…]»
 
António Lobo Antunes in Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar? D.Quixote.
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Publicado por Fernando Delgado às 01:19
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