Sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

António Lobo Antunes

Já uma vez aqui tentei reproduzir parte de uma entrevista de António Lobo Antunes à SIC, e agora faço o mesmo com a entrevista desta noite a Judite de Sousa, na RTP1, pela simples razão de que elas contêm alguns dos momentos mais interessantes do que de bom se faz em televisão (por isso mesmo, por se tratar de televisão, e também porque esta transcrição livre dos primeiros 5-6 minutos, em mais de meia-hora, omite coisas importantes, incluindo os silêncios, o vídeo está disponível aqui).

 

Para mim, trata-se apenas de um exercício de auto-aprendizagem, confessando a enorme dificuldade em ler de fio a pavio alguns dos livros de Lobo Antunes. Vou tentar o último, em que até o título é, em si mesmo, um convite irresistível: Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?
 
«[…]
JS – … vida é uma palavra certa para definir este percurso de 30 anos de vida dedicada à escrita?
ALA – … esse termo vida literária não foi cunhado por mim. Na realidade eu escrevo desde que me conheço (devo ter começado a escrever conscientemente por volta dos cinco, seis anos), portanto é muito mais do que isso… Eu penso que eles estão a querer dizer … com a altura da publicação do primeiro livro, que não era o primeiro livro, aliás, … eu escrevia os livros e deitava-os fora. Não tinha pensado fazer uma carreira, digamos assim, enquanto escritor…
JS – … a palavra vida é uma palavra justa para definir a sua relação com os livros e a sua relação com a escrita?
ALA – Nesse sentido posso aceitar a definição. De facto, ao longo da minha vida tenho sistematicamente cortado os pescoços que se interpõem entre mim e os livros, e às vezes tenho a sensação de ser uma galinha que protege os ovos… Os ovos neste caso são os livros, evidentemente. Os livros, o tempo para escrever e a disponibilidade que é preciso para isso…
JS – Como é que o António gere esse tempo e essa disponibilidade?
ALA – Sabe, é uma questão de método, porque quando estou com um livro…, normalmente é sempre o mesmo horário. Começo às nove e meia-dez, acabo à uma, recomeço (…). Isto, todos os dias, até o livro estar pronto (…)
JS – (…) isso não é muito esgotante?
ALA – Não! O que é mais esgotante são os intervalos entre os livros, em que a Judite não sabe se vai ser capaz de escrever outro livro, ou não…, porque os livros não são feitos por si…, pelo menos nos meus não tenho a convicção de ser o autor deles… Outro dia, por exemplo, eu estava cansado - tinha escrito muitas horas… Fui à estante e tirei um livro ao acaso, era Os Tempos Difíceis, do Dickens, (…) abri o livro, assim…, e a certa altura num diálogo espantoso de duas, três linhas, em que o filho vai visitar a mãe, já velha e doente, muito doente, e pergunta-lhe: tens dores, querida mãezinha?, e ela responde: tenho a impressão que há uma dor aí, pelo quarto, mas não sei se me pertence. Isto é espantoso… Agora, o acto de escrever é um pouco parecido com isto: tem a sensação de que há um livro por aí, mas não sabe exactamente se lhe pertence… E é quando ele está acabado, e nessa altura deixa de lhe pertencer.
JS – E é por isso, também, que o António diz que parte sempre de uma folha em branco (…)? E há uma outra coisa que o António também diz: sofre com a escrita, representa também uma certa dose de sofrimento (…)
ALA – Representa uma certa sensação de sentimentos misturados: sofrimento, alegria, júbilo, desânimo, descrença, etc. Mas é evidente que é um trabalho agradável. (…) sobre as duas primeiras versões. A primeira versão, (…) a sensação que eu tenho é como uma estátua enterrada no jardim, tem que cavar a terra, tirar a estatuetazinha, depois limpá-la, da terra, dos insectos mortos, das folhas podres, até aquilo tomar a forma de um livro. A segunda versão é um magma que tem que ser muito bem trabalhado, depois…
JS – (…) nas tais horas que dedica à escrita, há pausas, há horas que dedica à leitura…
ALA – (…) eu leio todos os dias, sim. Para aprender! Sabe, eu continuo sem saber nada do que é escrever, e tenho a sensação de quando estou a escrever, a trabalhar… pareço uma criança cega, a tropeçar às escuras num caminho que não conhece.
JS – Quando diz que não sabe nada do que é escrever, isso não é modéstia?
ALA – Eu não tenho modéstia…, acho que tenho um orgulho humilde. Acho que é uma consciência de que …, como é que eu hei-de explicar… Sabe, aqui há uns anos deram-me uma coisa que era o prémio Jerusalém, uma coisa importante…, era preciso fazer um discurso, que tinha que ficar incluído num livro, que depois era publicado, juntamente com os discursos daqueles que tinham ganho o prémio anteriormente, e o que me veio à cabeça, e como eu acabei, foi uma carta do Newton (que mudou a nossa vida e a nossa concepção do mundo: ele descobriu a identidade sobre a diversidade, descobriu que a lua que não cai e a pedra que cai são o mesmo fenómeno, … modificou por completo o nosso conceito do tempo que possibilitou toda a grande física moderna, todos os avanços a partir do séc. XIX, Einstein, Max Planck, etc, foram todos esses caminhos que foram descobertos…) E no fim da vida ele escreve a um amigo, mais ou menos assim: não sei o que o futuro pensará de mim, na minha opinião fui apenas uma criança a brincar na praia, que encontra o seixo mais bonito, a concha mais colorida, enquanto o infinito oceano da verdade continua intacto diante de mim… Ele era um homem vaidoso, no entanto tinha a perfeita consciência de que estamos apenas na idade da pedra do conhecimento… E, no fundo, porque uma pessoa escreve? Por um lado, para se conhecer melhor a si mesmo e aos outros, por outro lado, porque a arte, apesar de tudo, talvez seja a forma suprema de dignificação do homem. A nossa única possível vitória sobre a morte.
JS – E o António, também escreve para se conhecer a si próprio?
ALA – Não, porque… Tomara eu! O que se passa na realidade é que continuo a ser ignorante. Podia quase assinar como o Leonardo da Vinci, que assinava Leonardo Iletrado (…)
(…)
ALA – Nós nunca falamos de livros. Não falo de livros com os meus amigos. Tenho um grupo de amigos, com que eu me junto às quintas-feiras, e há três assuntos que são tabus: não falamos de mulheres, de política, nem de religião.
JS – Porquê esses assuntos tabus?
ALA – Porque podemos falar de assuntos muito mais importantes e muito mais interessantes…, e com menos mentira. Já reparou como os homens quando falam das mulheres mentem constantemente e tentam posar de perfil, dar a eles mesmos uma boa imagem. De política não falamos, porque há pessoas de tendências e opiniões várias e aquilo que nos une são outro tipo de coisas. (…) Eu conheço-as e é evidente que eles têm opiniões e pontos de vista diferentes sobre um certo número de coisas (…) Sabe, as pessoas são como os arco-íris, nós nunca nos entendemos nas sete cores, se nos entendemos em três ou quatro já é muito bom… O casamento no fundo é isso: são pessoas que são convocadas, um homem e uma mulher, a entender-se em quatro ou cinco cores. Isto é excepcional. E então é nessas cores que nós temos que viver, e respeitar as cores diferentes um do outro.
JS – Isso é respeitar, a diversidade, de certa forma…
ALA – Sim, o gosto… Compreender que, por exemplo, enquanto nós homens somos rotineiros, as mulheres gostam da surpresa. Os homens têm tendência a ir aos mesmos restaurantes, a levar mesmo tipo de vida, etc. As mulheres gostam de uma coisa muito curiosa, gostam da surpresa no interior do quotidiano.
JS – Conhece bem as mulheres (…)
ALA – Eu nasci duma mulher!... Isso é um milagre que eu não esqueço…
[…]»
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Publicado por Fernando Delgado às 02:02
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Fernando Delgado

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