Terça-feira, 20 de Outubro de 2009

Odores de Outono

 

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Canon EOS 400D; Sigma 18-200 mm;

(1/60 s; f/5,6; 106 mm; ISO 400) (1/250 s; f/7,1; 200 mm; ISO 400) (1/250; f/7,1; 200 mm; ISO 400)
 
Não gosto de partilhar estas pequenas coisas, mas também me parece que cada vez mais existem pequenos mundos que se não forem partilhados acabam por se tornar exóticos... E não há nada de exótico na caça! É verdade que há muito tempo deixei de correr atrás das perdizes - hoje procuro-as, mas pouco me importa que os seus inúmeros segredos acabem por me enganar e me escapem. O gozo está na descoberta de outras coisas, incluíndo a própria geada matinal do Outono que pelos vistos o Miguel* nunca se apercebeu que existia. O segredo está nos pequenos detalhes de um cão que nos guia pelo labirinto infindável de uma procura que se torna em descoberta e que o (outro) Miguel exemplarmenete decreveu**. Não, não procuro um desporto, nem sequer um almoço diferente, mesmo que o gosto a perdiz com couve-lambarda*** ainda perdure. Não, a descoberta está nos odores da manhã, no nascer do sol por entre as nuvens, no despedir das folhas de carvalho, no bater agitado das asas desse perdigão sobrevivente de mil emboscadas, no silêncio que acompanha a morte... É, de algum modo, uma descoberta do que de primitivo há em nós...

 

«Dantes, aos primeiros sinais de Outono, eu entrava em depressão. Mais do que a chegada do Outono, o que me deprimia era o fim do Verão, pois que sempre fui devoto dessa verdade enunciada por Rilke: "só o Verão vale a pena".
(…)
Mas, há uns anos, tudo mudou. Alguns amigos começaram a levar-me à caça e eu descobri que, além do mar, também havia a terra, e depois do Verão havia o Outono: foi uma descoberta tardia, mas decisiva, como se tivesse descoberto uma quinta estação do ano e, mais do que isso, um novo pretexto para a felicidade.
(…)
Muito embora o campo não me fosse propriamente estranho, eu não sabia como eram os campos de caça. Não fazia ideia do mundo novo, primordial e deslumbrante, que iria encontrar. Não imaginava as manhãs de geada ou de orvalho suspenso nos arbustos e nos ramos das árvores, as manhãs de frio polar ou as de chuva e lama, onde nos enterramos até à alma e maldizemos a decisão de ter saído da cama - que logo depois bendizemos, assim que os primeiros raios de sol rompem as nuvens e o frio ou que a primeira peça de caça tomba no chão. Não imaginava as longas caminhadas por cabeços ou planícies, por leitos secos de rios ou através da água, o cheiro a esteva e a giesta, ou as longas emboscadas, atento a todos os ruídos, ao simples agitar de uma folha, adivinhando a presença próxima dos animais antes de os ver. As esperas silenciosas à beira de um riacho, molhando a cara na água cristalina, aproveitando para colher poejos ou beldroegas tardias, aproveitando para pensar na vida, no essencial, no que verdadeiramente importa. A sós, com os três maiores luxos que um homem pode ter: espaço, tempo e silêncio. Porque aqui não há multidões nem urbanizações turísticas, não há pressa nem vozearia de conversas inúteis.
[…]»
* Miguel Sousa Tavares in Outono e Elogio da Caça. Expresso, 09-10-2009.

 

«[...] Segue-se que estavam praticamente a sair de casa, quando um cheiro a perdigão lhe entrou em faca pelo nariz. Estacou ali mesmo, no meio da estrada, voltado para a ribanceira. Ainda se lembrava perfeitamente de ter ficado com a pata direita no ar, paralisada. Depois, a tirar de ventos, foi andando cautelosamente. Até que se encontrou a dois palmos do seu velho conhecido. Era um patriarca manhoso, de esporões em rosário pelas pernas acima, que há anos lhe moía a paciência. Três vezes - em três épocas sucessivas - o pusera a tiro para o patrão, sem valer de nada. O velhaco abria as asas, deixava o chumbo passar, e, sem ninguém mais a afligi-lo, ficava à larga, a criar unto. [...]»
** Miguel Torga, in Os Bichos. Edição do Autor.
 

*** Para os aprendizes, consultar, por exemplo, O Livro de Pantagruel, pág. 539, na edição do Circulo de Leitores.

 

 

Publicado por Fernando Delgado às 01:37
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