Segunda-feira, 21 de Setembro de 2009

O PIB e a felicidade

 

(Esta é uma notícia muito interessante. Vale a pena ler na integra este artigo, no Público. Nem que seja por uma questão de auto-estima…)
«[…]
Podemos confiar cegamente em apenas um indicador para saber qual o rumo que o país está a seguir? E devemos, seguindo a mesma lógica, concentrar todos os nossos esforços em fazer subir este indicador específico? Há quem ache que não e tenha decidido, durante a passada semana, dar um passo importante para pôr em causa a ideia de que o PIB, tal como é calculado, é o único indicador de referência possível para medir o sucesso de uma sociedade.
Em resposta a uma encomenda do Presidente francês, os prémios Nobel da Economia Joseph Stiglitz e Amartya Sen, com a ajuda de um conjunto vasto de outros economistas de renome internacional, apresentaram um relatório que enumera as falhas do actual PIB e que sugere modificações que permitam incluir, no seu cálculo, outros factores. A felicidade, a sustentabilidade ambiental ou uma distribuição mais equilibrada do rendimento são colocadas, nesta proposta, lado a lado com aquilo que é fisicamente produzido.
A ideia não é original. Logo quando foi criado o conceito de PIB, houve quem apontasse as insuficiências e fragilidades deste indicador. Em 1990, as Nações Unidas criaram o Índice de Desenvolvimento Humano (que junta o PIB a outros indicadores no campo da saúde e educação) e mesmo no isolado Reino do Butão as autoridades têm vindo a utilizar como medida principal do seu desenvolvimento o conceito de Felicidade Interna Bruta (FIB).
A diferença da iniciativa de Sarkozy é que parte de uma das potências económicas mundiais e tem, para além da credibilidade académica dos seus autores, o apoio técnico da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), uma instituição que tem como membros os países mais ricos do planeta. Pela primeira vez há uma hipótese, por muito vaga que seja, das potências mundiais começarem a alterar a forma como medem o desenvolvimento dos seus países.
[…]
O PIB, tal como é calculado actualmente, limita-se a ser a soma da produção final realizada e contabilizável, durante um determinado período, no território de um país. Isto faz com que, por exemplo, a construção de uma prisão contribua para fazer subir o PIB, ao passo que os momentos de lazer de uma pessoa, se não implicarem qualquer consumo, não influenciam em nada o resultado estatístico final, constituindo, nesta matéria, apenas um desperdício de tempo. São estas características do PIB que fazem com que se coloquem interrogações sobre o estímulo que se está a dar à sociedade, quando é este indicador que é utilizado como a principal referência para o sucesso de uma economia.
A proposta da equipa liderada por Stiglitz é a de criar um indicador novo. Corrigir várias das actuais características do PIB e, principalmente, juntar-lhe uma série de novos dados. A mudança nos procedimentos estatísticos seria de tal modo radical que o novo indicador proposto não seria um "novo PIB", mas sim algo completamente diferente.
Começa-se logo por dizer que o Produto Interno tem de ser abandonado para passar a dar mais importância ao Produto Nacional, uma vez que este último leva em linha de conta os rendimentos que são transferidos de fora ou para fora do país. Depois, defende-se uma maior utilização de indicadores como os rendimentos das famílias, procurando não olhar apenas para a média, que pode esconder fortes desigualdades, dando mais atenção à forma como está distribuída a riqueza.
A noção de sustentabilidade também ganha um papel central. Não só em termos ambientais, como na avaliação da capacidade do modelo económico seguido poder assegurar um crescimento o mais prolongado possível. Esta questão ganhou mais importância com a crise e, por isso, é proposto que indicadores como o nível de endividamento sejam levados em conta.
Por fim, na tentativa de incluir a felicidade nas estatísticas oficiais, o relatório aposta no recurso a uma série de indicadores - objectivos e subjectivos. Dados quantificáveis referentes ao sistemas de saúde, ao nível educativo, aos níveis de segurança ou ao funcionamento das instituições democráticas juntam-se a avaliações qualitativas da forma como está organizada a sociedade e do nível de felicidade de cada um.
[…]
Esta é, claro, uma das tarefas mais difíceis de concretizar. Como afirma José Reis, professor da Faculdade de Economia da Universidade Católica, "a medição da felicidade é uma das derivas economicistas de uma teoria económica que admite que tudo é monetarizável e quantificável".
O problema é que, na tentativa de quantificar a felicidade, os estudos realizados ao longo das últimas décadas apresentam conclusões que estão muito longe de serem consensuais. Feitas com base nesses estudos, há tabelas mundiais de felicidade com resultados para todos os gostos. Tanto ficam os países pobres das Caraíbas, com o seu clima sempre quente e praias paradísiacas, na liderança como se obtêm resultados que apontam para uma correlação quase perfeita entre dinheiro e felicidade.
[…]»
"Afinal sempre há vida para além do PIB", no Público, de 20.09.2009
Tags:
Publicado por Fernando Delgado às 02:40
| Comentar post
Patilhar
Fernando Delgado

Pesquisar

 

Posts recentes

«Human»

Outono

MEC sobre Trump

À espera de Godot

De Niro, sem maquilhagem

Guterres

Arturo Pérez-Reverte

Achamentos na Costa Vicen...

(Gente) sinistro(a)

«Someday this war's gonna...

BREXIT (adenda)

Brexit

Carla Bley

A Seiva da Raíz

Regresso à «Tabacaria»

Abril

... às portas do casino

a força da canção ao vivo...

O casino!...

Retrospectivas

Avec les temps...

Escravatura...

Umberto Eco

As ondas do Albert

Volta-de-lua

Tags

aprender

canções

estórias

interiores

leituras

notícias do casino

outros olhares

peanuts

pintura

rural

todas as tags

Arquivos