Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

Miguel Sousa Tavares

«(…)

Como tantos outros, procurei sempre encontrar um significado mais grandioso, ou simplesmente mais humano, para aquela linda frase de que morrem jovens os que os deuses amam. Para que não seja apenas uma frase bonita ou para que não queira antes significar a crença terrível de que os deuses só amam os que morrem jovens, assim como bestas desumanas que se alimentam da juventude ceifada. Não sei a resposta: desisti há muito de entender os deuses, de achar um significado humano para a desordem instaurada pelo divino.
(…)
Eu tinha vindo para me afastar do outro deserto sem fundo onde senti que me estava a precipitar; tu tinhas vindo em trabalho, para fazeres um filme e reportagens fotográficas. Eu só queria viajar e distrair-me, conhecer o deserto e estar com amigos; tu tinhas vindo com uma obsessão, como quem vem para uma expedição militar: querias, não apenas viver o deserto, mas aprisioná-lo, contá-lo, fotografá-lo, filmá-lo, enlatá-lo em cassetes de vídeo e rolos de película e levá-lo para casa e para o ecrã, nessa atitude de predador que os jornalistas gostam tanto de exibir. Não vos basta ver, é preciso roubar, também.
(…)
Tu não respondeste nada. Os teus olhos azuis, ainda estremunhados, o teu cabelo espalhado ao vento em todas as direcções, a tua cara de sono, de menina pequena, respondiam por ti – e, caramba, como tu ficavas bonita assim, sem precisares de dizer fosse o que fosse! Apenas o olhar em frente, como te tinha visto fazer em todos aqueles dias, no banco ao lado do meu no jipe. Tu falavas pouco e essa era uma das coisas de que eu gostava em ti. Quando tudo era bonito de mais ou duro de mais, tu ficavas calada a olhar silenciosamente. Falámos sobre isso uma vez, e eu disse que a vida me tinha ensinado que fácil era o ruído, as conversas sem sentido, a banalidade das palavras ditas sem necessidade alguma. De nós os dois, tu eras, sem dúvida alguma, a mais calma, a mais feliz tranquilamente. A mais atenta, a mais disponível para o vazio e o silêncio. Ah, não te rias, eu observei-te bem, sei do que falo!
(…)
Hoje já ninguém vai ao nosso deserto, Cláudia. Os fundamentalistas islâmicos, como os de Laghouat, tornaram-se sanguinários e incontroláveis e os próprios tuaregues revoltaram-se contra o poder de Argel.
Mas a razão principal não é essa. A razão principal é que já não há muita gente que tenha tempo a perder com o deserto. Não sabem para que serve e, quando me perguntam o que há lá e eu respondo “nada”, eles riscam mentalmente essa viagem dos seus projectos. Viajam antes em massa para onde toda a gente vai e todos se encontram. (…)»
 
Miguel Sousa Tavares in No teu deserto. Oficina do Livro.
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Publicado por Fernando Delgado às 01:32
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