Sábado, 4 de Julho de 2009

Cabrera Infante

«(…)

De regresso à calçada era mais tarde do que julgava. Já não passavam autocarros nem havia táxis à vista. Agora apenas viria a camioneta como uma alma sozinha, hora a hora. Quando chegou, não foi preciso esperar que a porta se abrisse porque a essa hora estava sempre aberta. Ao subir, o motorista recebeu-me com uma certeza havanesa, a essa hora.
            - Foste apanhado num aperto, companheiro.
            Disse-me e tive de lhe dizer: “é o que parece”, agradecido por esta figura popular da madrugada não ter feito a menor referência ao perseguido e à sua vítima. Mas disse uma coisa que era mais memorável do que a madrugada:
            - Embainha a tua espada, mano, não vá enchê-la de ferrugem o orvalho da noite.
            Foi então que percebi que era negro. Outro Otelo, sem dúvida.
 
 
Goza o dia – ou melhor, a noite. Não, o dia. O dia todo. Marca-o com uma pedra branca. Que tal o penhasco branco do hotel? Marca-o. E os olhos dela? Marca-os também. Marca o dia, agarra-o, prende-o pelas tetas. Melhor será dizer tetinhas. Marca-o, se fazes favor, não sejas desleixado. Marca o dia. Era 16 de Junho de 1957. Foi esse o dia? Esse dia não é teu. Não pode de maneira nenhuma ser 16. Mas era Junho e era 1957. Embora não fosse provavelmente 16. Digamos com firmeza que talvez não fosse esse o dia. Mas era, acreditem, Junho e 1957. Bom, vamos esquecer 16, se quiserem. Devemos marcá-lo com uma pedra branca. Esquece a data, esquece-a, que não me incomoda, mas será uma data de ficção, não a verdadeira. E quem quer uma data verdadeira? Por isso te digo, esquece-a. Embora ache que não deves voltar a mencioná-la. Pega na pedra e esquece o dia.
(…)»
 
Guillermo Cabrera Infante in A Ninfa Inconstante. Quetzal.
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Publicado por Fernando Delgado às 02:25
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