Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

Mohammed Dib

«(…)

Ele parece querer apenas arrancar algo de si próprio e, quando consegue, não sem alguma dificuldade, é para se dividir em dois, quando antes era uno e único. A outra parte é uma mulher: aquilo que ele criou. Uma maravilha à sua imagem. E, contudo, parece ter realizado o mais banal dos actos.
(…)
E agora que a todas deu nome – tanto quanto podemos pensar – ele descansa. Enquanto isso, trinca um fruto a ele oferecido pela mulher, também ela nua, tal como a extraiu de si próprio, nua e passeando por esse jardim. Em troca desta dádiva, desta cortesia, ele recita-lhe os nomes que acabou de atribuir às coisas, que, até aí, não tinham nome nenhum. Ela senta-se e, enquanto escuta, com um seio esmagado contra o flanco do homem, a longa enumeração, a bela adormece. Ele repara nisso, parece compreender que é a resposta mais justa à sua fastidiosa litania. Mudo, contempla-a no seu sono. Certamente lembra-se, nesse momento, de que ela é a única que ainda não recebeu nome. E nós ouvimo-lo dar-lhe um.
            - Hawa – diz ele.
            Olha para ela; repete:
            - Hawa.
            - Sim – diz ela, no meio do seu sono.
            Este “sim” atravessa a grade e ouvimo-lo chegar até nós a aflorar-nos com a frescura de uma brisa.
            Mas, mal ela proferiu esta aprovação – e aí reside o artifício que ele usou – o efebo sem idade volta a pegar nela e refunde-a nele, tornando-se o hermafrodita do fim, como já fora o do início. Assim o hermafrodita coroado, o real enigma, é ele, tal como se apresenta diante de nós.
(…)
Depois, o deserto refez-se, devolveu-se a si próprio, simulando de novo esse espaço onde o olhar não sabe onde pousar. E unindo-se, como acaba de fazer, engoliu o que, ainda há instantes, pretendia aí fundar-se, aí permanecer. Mas o sonho perseguir-nos-á na mais profunda gruta onde haveríamos de procurar refúgio: abismo que se abre e que nos abre e onde, com o coração cativo do tormento, ouviremos uma voz de criança que grita: “Pai! Pai!...”
(…)»
 
Mohammed Dib in O Deserto sem Saída. Quetzal.
Tags:
Publicado por Fernando Delgado às 02:03
| Comentar post
Patilhar
Fernando Delgado

Pesquisar

 

Posts recentes

Assimetrias

J. Fanha

Eduardo Mendoza

«o pregador de verdades d...

Belos dias

A Gente Vai Continuar

Talamou

Dylon

«A realidade é uma opiniã...

«Human»

Outono

MEC sobre Trump

À espera de Godot

De Niro, sem maquilhagem

Guterres

Arturo Pérez-Reverte

Achamentos na Costa Vicen...

(Gente) sinistro(a)

«Someday this war's gonna...

BREXIT (adenda)

Brexit

Carla Bley

A Seiva da Raíz

Regresso à «Tabacaria»

Abril

Tags

aprender

canções

estórias

interiores

leituras

notícias do casino

outros olhares

peanuts

pintura

rural

todas as tags

Arquivos