Domingo, 3 de Maio de 2009

Syngué Sabour*

 

* (Do persa syngue "pedra" e sabour "paciente" significa pedra-de-paciência.Na mitologia persa, trata-se de uma pedra mágica que o crente deve pousar à sua frente para derramar sobre ela as suas infelicidades, os seus sofrimentos, as suas dores, as suas misérias... Confia-se-lhe tudo o que não se ousa revelar aos outros... E a pedra escuta, absorve como uma esponja todas as palavras, todos os segredos, até que um dia a pedra racha... Nesse dia o crente liberta-se de tudo.)

 

«(...)

            Agita-se. Depois, nada.
 
            Nada mais.
 
            Depois, a noite volta a cair.
            Os tiros soam.
            A vizinha regressa com os seus cantos e a sua tosse de além-túmulo. E desaparece imediatamente.
 (...)
            O sol deita-se.
            As armas acordam.
            Mais uma vez, esta noite destrói-se.
            Mais uma vez, esta noite mata-se.
            A manhã.
            Chove.
            Chove na cidade e nas suas ruínas.
            Chove nos corpos e nas suas chagas.
(...)
             Os olhos continuam vazios, sem alma...mas hoje estão húmidos de lágrimas! Ela acocora-se, assustada. "Tu. ..tu choras?!" Vai-se abaixo. Mas apercebe-se logo de que as lágrimas vêm apenas do tubo, da água açucarada-salgada. Da sua garganta seca, emana uma voz abafada: Mas quem és tu?" Um tempo, duas respirações. "Porque é que Deus não envia Izra'el para acabar contigo de uma vez por todas?", pergunta subitamente. "O que é que ele quer de ti?" Levanta a cabeça. "E o que quer de mim?" Uma tonalidade grave ensombra-lhe a voz. Castigar-te!, dir-me-ias tu." Faz sinal que não com a cabeça e, numa voz mais clara, diz: "Desengana-te! Talvez sejas tu que ele deseja castigar. Mantém-te vivo para que tu vejas o que sou capaz de fazer de ti, contigo. Está a transformar-me num demónio. .. para ti, contra ti! Sim, sou o teu demónio!, de carne e osso!" Instala-se no colchão para evitar o olhar vítreo do homem. E fica um longo momento silenciosa, pensativa. Parte para outro lugar, longe, muito longe no tempo, para o dia em que o demónio nasceu nela."Com tudo o que te contei ontem, dir-me-ás que já era um demónio em pequena. Um demónio aos olhos do meu pai."
A sua mão toca suavemente no braço do homem, acaricia-o: "Mas, para ti, nunca o fui, pois não?" Inclina a cabeça. "Sim... Talvez..." Um silêncio carregado de dúvidas e incertezas. "Mas tudo o que fiz foi por ti. ..para te manter." A sua mão desliza pelo peito do homem. "Não, não... para dizer a verdade, foi para que me mantivesses contigo. Para que não me deixasses! Foi por isso. .." Interrompe-se. O seu corpo encolhe-se e aconchega-se ao lado do homem. "Fiz tudo para que me mantivesses. Não apenas por te amar, mas para que não me abandonasses. Sem ti, não tinha mais ninguém. Todos me teriam banido." Cala-se. A sua mão vai coçar a fronte. "Confesso que a princípio não estava segura de mim. Não estava segura de poder amar-te. Perguntava-me como amar um herói. Parecia-me tão inacessível, como um sonho. Durante três anos, tentei imaginar como eras. ..E, depois, um dia apareces-te. Deitaste-te na cama. Em cima de mim. Esfregaste-te contra mim. ..Não conseguias! E nem sequer te atrevias a dizer-me uma palavra. Na escuridão completa, com os nossos corações batendo freneticamente, com as nossas respirações irregulares e os nossos corpos em suor. .." Ela tem os olhos fechados. É levada para longe, longe daquele corpo inerte. Está completamente imersa na escuridão daquela noite de desejo. Sedenta. Fica lá um momento. Sem palavras. Sem gestos.
(...)
            O sol declina.
            A mulher tem de voltar para junto das filhas.
            Antes de deixar a casa, pára no quarto para efectuar as suas tarefas habituais.
            Depois, parte.
 
            Nessa noite, não disparam.
            À luz fraca e fria do luar, os cães vadios ladram em todos os cantos da cidade. Até à aurora.
            Têm fome.
            Nessa noite, não há cadáveres.
(...)»
 
Atiq Rahimi in Pedra-de-Paciência (Syngué Sabour). Teorema.
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Publicado por Fernando Delgado às 01:58
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