Terça-feira, 4 de Outubro de 2005

A Máscara

 Tenho assistido nos últimos tempos a um conjunto de debates na RTP sobre questões ligadas a diversas reformas (ou tentativas de reforma...) da administração pública. Em cada um dos debates estão em causa um conjunto de regalias, ou direitos adquiridos, de um ou vários grupos profissionais - farmacêuticos, juízes e magistrados, militares, etc. Não sei se têm razão ou não, nem é isso que agora mais me interessa, até porque há muito tempo deixei de emitir opiniões sobre questões muito específicas de que apenas sei os contornos genéricos - por experiência própria, sei que qualquer avaliação não deve ser feita apenas pelas aparências ou o conhecimento empírico…

O que me choca é o facto de sistematicamente aqueles grupos profissionais justificarem os seus protestos (incluindo a greve) com argumentos que à partida sei não corresponderem aos reais motivos desses protestos. Chega a ser confrangedor ouvir os representantes desses grupos, que de repente parecem ter colocado uma máscara, não sei bem se para esconder a forma se o conteúdo das suas reais e, provavelmente legítimas, motivações. Nunca percebi este tipo de comportamentos nos relacionamentos pessoais, mas o simples incómodo que nestes casos me causa, é insuportavelmente maior quando se trata de grupos sociais, porque o que está em causa são opções colectivas que devem ser reguladas por normas éticas, claramente compreensíveis e assimiláveis num regime democrático... Esta máscara é ridícula, como todas as máscaras, e a prazo a aparência de comédia pode tornar-se numa tragédia. A verdade, qualquer que ela seja, é sempre menos dolorosa do que a sua inevitável descoberta após qualquer mentira ou meia-verdade. A máscara só provisoriamente suporta um argumento e, neste caso, o provisório é tão evidente que se torna insuportável.

(A máscara pode ser uma forma de busca do anonimato - por exemplo, em Veneza era comum usarem-se máscaras com objectivos facilmente compreensíveis... - mas aqui estamos perante o pessoal e a moral, não ante o colectivo e a ética... O pessoal e a moral não me dizem respeito, o colectivo e a ética condicionam a minha forma de ser e de estar. Esta distinção faz toda a diferença!)

Publicado por Fernando Delgado às 00:00
| Comentar post
Patilhar
Fernando Delgado

Pesquisar

 

Posts recentes

Assimetrias

J. Fanha

Eduardo Mendoza

«o pregador de verdades d...

Belos dias

A Gente Vai Continuar

Talamou

Dylon

«A realidade é uma opiniã...

«Human»

Outono

MEC sobre Trump

À espera de Godot

De Niro, sem maquilhagem

Guterres

Arturo Pérez-Reverte

Achamentos na Costa Vicen...

(Gente) sinistro(a)

«Someday this war's gonna...

BREXIT (adenda)

Brexit

Carla Bley

A Seiva da Raíz

Regresso à «Tabacaria»

Abril

Tags

aprender

canções

estórias

interiores

leituras

notícias do casino

outros olhares

peanuts

pintura

rural

todas as tags

Arquivos