Quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2009

García Márquez

«(…)

O doutor Giraldo teve a certeza, ao entardecer, de ter ganho muito terreno ao passado. As amendoeiras da praça voltavam a estar cheias de pó. Um novo Inverno passava, mas o seu passo silencioso deixava na recordação uma marca profunda. O padre Ángel regressava do seu passeio vespertino quando encontrou o médico tentando meter a chave na fechadura do consultório.
- Está a ver, doutor – disse, sorrindo. – Até para abrir uma porta é necessária a ajuda de Deus.
- Ou de uma lanterna – disse por sua vez o médico.
Fez girar a chave na fechadura e depois ocupou-se inteiramente do padre Ángel. Viu-o tenso e cor de malva ao crepúsculo. “Espere um momento, padre”, disse. “Creio que alguma coisa não anda bem no seu fígado”. Reteve-o pelo braço.
- Acha que sim?
O médico acendeu a lâmpada do vestíbulo e examinou, com uma atenção mais humana que profissional, o semblante do pároco. Depois abriu a porta forrada de rede de arame do consultório e acendeu a luz.
- Não seria nada excessivo consagrar cinco minutos ao seu corpo, padre – disse. – Vamos medir essa tensão arterial.
O padre Ángel estava com pressa. Mas perante a insistência do médico, entrou para a salinha e preparou o braço.
- No meu tempo – disse – não existiam essas coisas.
O doutor Giraldo colocou uma cadeira diante dele e sentou-se a preparar o aparelho.
- O seu tempo é este, padre – disse, sorrindo. – Não lhe negue o corpo.
 
(…)
 
- Neste lugar faz falta um santo – disse o padre.
O médico examinou as paredes. “Não só aqui”, disse. “Também faz falta na povoação. “Guardou o aparelho num estojo de couro, que fechou com um puxão enérgico do fecho-éclair, e disse:
- Saiba uma coisa, padre: a sua tensão está muito bem.
- Já desconfiava – disse o pároco. E acrescentou com uma complexidade lânguida: - Nunca me tinha sentido tão bem em Outubro.
Começou lentamente a desenrolar a manga. Com a sotaina de bainhas remendadas, os sapatos em péssimo estado e as mãos ásperas cujas unhas pareciam de corno chamuscado, prevalecia nele, nesse instante, a sua condição essencial: era um homem extremamente pobre.
- No entanto – prosseguiu o médico -, estou preocupado consigo: temos de reconhecer que o seu regime de vida não é mais adequado para um Outubro como este.
- Nosso Senhor é exigente – disse o padre.
O médico voltou-lhe as costas para olhar o rio escuro pela janela. “Pergunto a mim mesmo até que ponto”, disse. “Não parece coisa de Deus isto de se esforçar durante tantos anos para tapar com uma couraça o instinto das pessoas, tendo plena consciência de que por baixo tudo continua na mesma.” E depois de uma longa pausa, perguntou:
- Nestes últimos dias não teve a impressão de que o seu trabalho implacável tinha começado a desmoronar-se?
- Todas as noites, ao longo da minha vida, tive essa impressão – disse o padre Ángel. - Por isso sei que devo começar o dia seguinte com mais vontade.
Dispôs-se a abandonar o consultório, dizendo: “Vão dar as seis”. Sem se afastar da janela, o médico pareceu estender um braço ao seu encontro para lhe dizer:
- Uma noite destas, ponha a mão no coração e pergunte a si mesmo se não está a tentar colocar pensos na moral.
 (…)»
 
Gabriel Garcia Marquez in A hora má: o veneno da madrugada. Dom Quixote.
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Publicado por Fernando Delgado às 23:49
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