Segunda-feira, 2 de Fevereiro de 2009

Zafón

 

«Um escritor nunca esquece a primeira vez em que aceita umas moedas ou um elogio a troco de uma história. Nunca esquece a primeira vez em que sente no sangue o doce veneno da vaidade e acredita que, se conseguir que ninguém descubra a sua falta de talento, o sonho da literatura será capaz de lhe dar um tecto, um prato de comida quente ao fim do dia e aquilo por que mais anseia: ver o seu nome impresso num miserável pedaço de papel que certamente lhe sobreviverá. Um escritor está condenado a recordar esse momento pois nessa altura já está perdido e a sua alma tem preço.
A minha primeira vez foi num distante dia de Dezembro de mil novecentos e dezassete. Tinha então dezassete anos e trabalhava em La Voz de la Industria, um jornal decadente que definhava num edifício cavernoso que em tempos albergara uma fábrica de ácido sulfúrico e cujas paredes ainda ressumavam aquele vapor corrosivo que carcomia a mobília, a roupa, a vontade e até as solas dos sapatos. A sede do jornal erguia-se atrás do bosque de anjos e cruzes do cemitério de Pueblo Nuevo e, de longe, a sua silhueta confundia-se com a dos jazigos recortados sobre um horizonte apunhalado por centenas de chaminés e fábricas que teciam um eterno crepúsculo negro e escarlate sobre a cidade de Barcelona.
 
(…)
           
- É aquele maldito livro, o romance que ele quer escrever.
            - Há anos que anda nisso.
            - Há anos que o destrói. Eu corrijo e dactilografo todas as páginas. Durante os anos que tenho de secretária dele, já destruiu pelo menos duas mil páginas. Diz que não tem talento. Que é um impostor. Passa o tempo a beber. Às vezes vou encontrá-lo no escritório, lá em cima, bêbado, a chorar como uma criança…
(…)»
 
Carlos Ruiz Zafón in O Jogo do Anjo. Dom Quixote.
Tags:
Publicado por Fernando Delgado às 01:13
| Comentar post
Patilhar
Fernando Delgado

Pesquisar

 

Posts recentes

Ajustando as velas

Contrastes

Religiões

Negro profundo

«Ninguém desce vivo de um...

Recomeços

«Custo social dos incêndi...

Sinais

Recoleção

Domesticação...

"geografia das ausências"

Galerias ripícolas

do res nulius ao black ac...

A case of you

Assimetrias

J. Fanha

Eduardo Mendoza

«o pregador de verdades d...

Belos dias

A Gente Vai Continuar

Talamou

Dylon

«A realidade é uma opiniã...

«Human»

Outono

Tags

aprender

canções

estórias

interiores

leituras

notícias do casino

outros olhares

peanuts

pintura

rural

todas as tags

Arquivos