Quarta-feira, 31 de Dezembro de 2008

Paul Auster

Sempre entrei em livrarias olhando de soslaio para a publicidade aos livros, aqueles grandes cartazes com uma fotografia do escritor, com ar distraído ou acusador, mas sempre com o leve sorriso de quem se vende... É provável que seja apenas um preconceito meu, mas a verdade é que por causa dele nunca li nenhum livro de alguns desses ilustres vendedores de literatura. Paul Auster está nesta lista, por nenhuma razão especial a não ser essa rejeição instintiva ao excessivamente exposto, ao provocadoramente oferecido no cartaz de entrada da livraria. O problema é que no Natal há prendas, ditas de Natal, e também se oferecem livros. E ofereceram-me Mr. Vertigo, de Paul Auster.

É uma chatice. Queria ser simpático, mas não consigo passar da 20ª página... Na capa enumeram-se os prémios literários que o autor recebeu. Sinto-me estúpido. Volto à 20ª página. Mais um parágrafo…, qual quê? Não há nada a fazer… Este livro vai para a estante, assim, meio virgem... De qualquer modo agradeço a oferta. Um livro sempre é um livro!
Para os aficionados, aqui fica a 20ª página:
 
«(…) aquela propriedade - o piano, instalado algures no salão. Esopo era o único que sabia dar uso às teclas, mas tocava tão maI o que quer que fosse - mesmo as canções mais simples - que eu desandava do salão mal ele se sentava no banco do piano. Aquela droga de sítio era uma merda de todo o tamanho, a capital mundial da chatice, e, ao fim de um dia, já eu estava farto até dizer chega. As pessoas que viviam naquela casa nem sequer sabiam patavina de baseball, de modo que eu não tinha ninguém com quem falar dos meus queridos CardinaIs, que, nessa época, eram praticamente a única coisa que me interessava. Sentia-me como se tivesse caído aos trambolhões por um buraco do tempo e aterrado na Idade da Pedra, numa época em que os dinossauros ainda erravam pela Terra. De acordo com a Mãe Sue, Mestre Yehudi ganhara a quinta, sete anos antes, graças a uma aposta com um tipo qualquer em Chicago. Mas que rica aposta, disse eu. Vai-se a ver e, afinal, o perdedor é que ganhou; e quem ganhou é um lorpa, pois não ganhou outra coisa senão um futuro de merda em Olho-do-Cu-City, Estados Unidos da América.
Tenho de admitir que, nesses tempos, eu era um perfeito asno, um pequeno perfeito asno que dava coices por dá cá aquela palha, mas atenção: não vou pedir desculpa por aquilo que eu era. Eu era quem era, um produto das pessoas e dos sítios de onde tinha vindo, e não vale a pena pôr-me agora a chorar sobre esse leite derramado. Recordando aqueles primeiros meses, devo dizer que o facto que mais me impressiona é a extrema paciência que todos demonstravam, a compreensão perfeita e a incrível tolerância com que acolhiam os meus dislates. Fugi quatro vezes nesse primeiro Inverno -uma vez, até consegui chegar a Wichita, imagine-se só - e, de cada vez, foram-me buscar e levaram-me de volta para casa e nem uma só pergunta me fizeram. Eu valia um quase-nada mais do que nada, teria uma ou duas moléculas mais do que o mínimo necessário para haver um ser humano, e, como o mestre considerava que a minha alma não valia mais do que a alma de um animal, foi precisamente no estábulo, com os animais, que ele decidiu que começaria a minha aprendizagem.
Por muito que detestasse tomar conta daqueles porcos e galinhas, a verdade é que preferia a sua companhia à das pessoas. Tinha dificuldade em decidir quem é que odiava mais e todos os dias alterava a hierarquia das minhas animosidades. A Mãe Sue e Esopo não deixavam de ser (…)»
 
Paul Auster in Mr. Vertigo. Edições ASA.
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Publicado por Fernando Delgado às 22:43
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