Quarta-feira, 26 de Novembro de 2008

Lobo Antunes

 «(…)

            - Achas que dá para cozinhar isto?
            e deu para cozinhar só que o meu avô não apareceu à mesa, observou a terrina da porta
            - Não tenho tempo de comer
            um dos milhafres mortos apanhou-o a cachorra e levou-o consigo a escapar da matilha, o meu avô a tapar as manchas de cabrito esfregando as solas no chão, disparou tiros inúteis a pássaros demasiado longe pendurados do nada por um fio de nada e as molduras abanavam nos pregos, o cabrito a saber a leite de recente que era, dê-lhe mais vida avô para que se torne grande e saiba a carne a sério, o meu avô
            - Idiotas
            a acabar de esfregar as solas, a ir-se embora com o feitor e o meu pai nas escadas para o andar de cima contentando-se com o perfume dos baús e os passos descalços, basta-me a certeza que estás aí e não te foste embora, que regressas do celeiro dando por falta do brinco e dos ganchos sem te importares comigo dado que não te importavas comigo ou escondias de mim
            - Deixa-me
            porque eu uma criatura sem importância que afugentavas com o simples som da voz, basta-me saber que ficas e um dia destes talvez atentes na minha pessoa à tua espera sem necessidade de falar porque não necessito de falar, apenas tremer de esperança e tu
            - Anda comigo
na voz do princípio de nos conhecermos quando tu uma empregada da cozinha e eu a seguir-te pasmado, a maneira de andar, a nuca quando puxava o cabelo para o alto derivado ao calor do fogão e as tuas colegas
            - Olha o idiota acolá
            Visto que não era somente o meu pai que me desprezava, eram os camponeses, o maquinista do tractor, vocês todos, penso que os meus filhos também e eu a fugir no cavalo com vontade de levar-te para onde ninguém nos conhecesse e pudéssemos, por assim dizer, estar em paz
            (não me atrevo a sugerir que felizes)
            basta-me saber-te nesta casa para que eu tranquilo, aguardando que me chames e certo que chamarás nem que seja por pena, eu junto dos baús
            - Estou aqui
            sem coragem de tocar-te e desejando tocar-te, esquecido da Maria Adelaide, do ajudante do feitor, do meu pai
            - Porque não me deram outro filho?
            pronto a um risinho pateta à medida que chove lá fora e eu que não gosto de chuva
            - Tão bom que chova lá fora
            as árvores tristes e não faz mal garanto-te visto que nada me pode magoar, a serra cresce até nos cobrir por inteiro e o meu pai à mesa sem reparar nos baús nem atentar na filha do feitor
            - Patrão
            limpando o que estava limpo para se demorar onde ele estava, o prato do meu pai com mais batatas, as camisas mais engomadas que as nossas, a água do banho mais quente, os vapores da lagoa chagavam com a tarde misturados no frenesim das rãs
            (seriam rãs?)
            e alteravam-me a direcção dos sonhos através do movimento da água
            (rãs ou outros bichos quaisquer não sei quais)
            sentia o meu irmão a espiar o silêncio no interior do qual tanto ruído meu Deus, nunca disse o meu nome e nunca chamou por mim consoante nunca disse nenhum nome nem chamei por ninguém
            (haverá rãs do tamanho de vacas?)
            ao passar na cozinha o meu avô mandou quebrar a terrina do cabrito no pretexto que não gostava de dos desenhos da loiça, o meu pai nem dava pela filha do feitor, se acontecia esbarrar nela
            - Perdão
            e continuava a andar, as empregadas da cozinha
            - Queres ser patroa da gente?
            e ela não queria ser patroa de ninguém, queria o meu pai no celeiro consigo e o avental amarrotado, que lhe pegassem pela nuca como a um bicho e a deixassem na palha a acabar de falecer enquanto o sangue parava
            (não do tamanho das vacas, não me parece que haja rãs do tamanho de vacas, sempre miúdas, magrinhas)
            e nenhum filho dela
            - Não presto
            o meu irmão e eu saímos de manhã, uma vereda que talvez cruze a fronteira não sei, sei da herdade e da vila e dos desníveis da serra em que por vezes luzes e cabanas de pastores, depois do jantar o meu avô demorava-se no alpendre a lembrar-se dos pais e dos objectos da casa, o elefante em cima da camilha com a tromba colada e uma das patas no ar, metia-lhe a mão por baixo e ninguém a pisava, se a pata desse a impressão de ir esmagá-la tirava-a logo, o meu avô a sorrir e a esconder o sorriso
            - O que terá acontecido ao elefante?
(…)»
 
António Lobo Antunes in O Arquipélago da Insónia. Dom Quixote.
 
 
(Não há leituras fáceis...Tentem ler em voz alta, de preferência a duas vozes!...)
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Publicado por Fernando Delgado às 00:42
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