Terça-feira, 28 de Outubro de 2008

AMI

 

Detesto encontros de angariação fundos para qualquer grupo, para qualquer causa, para qualquer um dos infernos deste mundo. Na maior parte dos casos não passam de convívios de gente vaidosa, com interesses inconfessáveis, que se empanturra à custa de qualquer grupo de famintos. Depois do evento, lá regressam aos seus pequenos mundos (verdadeiramente nunca de lá saíram), aos seus afazeres e aos seus interesses quase sempre opostos àqueles que pretenderam ajudar. Não quero exagerar, mas não me comovem por aí além as manifestações de solidariedade com os desgraçados da sociedade... Apesar de tudo, prefiro a bofetada a oferecer a outra face…
Mas reconheço que neste mundo há gente diferente... O que mais me impressiona no Dr. Fernando Nobre (que estava a ouvir na televisão, a propósito do lançamento do livro Imagens Contra a Indiferença…), é a disponibilidade para os outros, quaisquer que eles sejam. Não sei se isto traduz a bondade de alguém, nem sei se da sua acção resulta a solução de qualquer conflito. Também não me parece que isso seja sequer importante: se entendo este homem espantoso, ele não quer resolver nenhum conflito, não quer ser a solução para nada. Quer limitar-se a ajudar pessoas, anónimas, de qualquer cor, em qualquer sítio do mundo, porque há muito que entendeu que apenas o ser humano enquanto indivíduo pode depender dele, o resto baloiça perigosamente entre uma miríade de interesses inconfessáveis.
É esta descoberta das suas limitações e a rigorosa actuação em conformidade com as mesmas, que me impressiona. Não há nenhuma utopia que supere este realismo. Não há nada de mais genuíno do que resistir há tentação do pedestal. Também por isso, a AMI é hoje, provavelmente, uma das poucas instituições de que Portugal se pode orgulhar. Não sei se Portugal faz muito por ela. Mas talvez seja melhor ser assim!...
 
(... e porque os velhos da minha geração quando falam destas coisas ainda sentem o leve perfume da utopia, porque não ouvir a velha canção de Geraldo Vandré Para não Dizer que não Falei de Flores, na voz de Simone, no YouTube...)

 

«Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Caminhando e cantando
E seguindo a canção

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Pelos campos há fome
Em grandes plantações
Pelas ruas marchando
Indecisos cordões
Ainda fazem da flor
Seu mais forte refrão
E acreditam nas flores
Vencendo o canhão

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Há soldados armados
Amados ou não
Quase todos perdidos
De armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam
Uma antiga lição
De morrer pela pátria
E viver sem razão

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Somos todos soldados
Armados ou não
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não

Os amores na mente
As flores no chão
A certeza na frente
A história na mão
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Aprendendo e ensinando
Uma nova lição

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontece»

- Geraldo Vandré -

 

Publicado por Fernando Delgado às 22:40
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