Sábado, 11 de Outubro de 2008

Lobo Antunes

(A televisão ainda tem coisas boas - a entrevista de ontem de Mário Crespo a António Lobo Antunes, na SICNotícias, é uma dessas raridades que ao fim do dia acaba por justificar o até amanhã... Como não sei colocar o vídeo aqui, nem sei se isso seria possível, acabei por transcrever os primeiros nove ou dez minutos, dos cerca de trinta dessa entrevista. É óbvio que qualquer excesso ortográfico é apenas o resultado da infelicidade das mãos, das minhas, até porque a linguagem escrita omite alguns pormenores importantes da linguagem oral, e sobretudo não revela os silêncios ou revela-os com outro sentido, pelo que nada substitui o original que pode ser visto aqui)

 
MC - O seu Arquipélago da Insónia, gostava de o ver lido por quem?
ALA - Quando estou a escrever nunca penso nos leitores, mas apenas em desembaraçar-me o melhor que posso do material que tenho…
MC - Que material é que tinha aqui?
ALA - A vida inteira!
MC - A sua?
ALA - A de nós todos. Nós somos ao mesmo tempo tão iguais e tão parecidos, porque as preocupações essenciais e as angústias essenciais são sempre as mesmas. Talvez o mais terrível para nós todos seja a angústia do homem no tempo… e a procura de nós mesmos… e a tentativa de compreender o significado e o sentido da vida… E até que ponto o sentido da vida dá sentido à morte?... E até que ponto a morte e a vida existem? Eu tenho muitas perguntas, mas acho que se algum dia souber as respostas, Deus muda logo as perguntas e me dá outras… Então a nossa vida acaba sempre por ser uma interminável interrogação, uma interminável pergunta... Umas vezes angustiada, outras vezes mais ou menos feliz, mas sempre uma pergunta. E vamos acabar ignorantes e tão inocentes como nascemos, creio eu.
MC - Eu ia lendo e… ia dividindo o livro… A principio, até me tentei a sugestionar se estava a encontrar as chaves para descodificar o segredo de tudo. (…) e comecei a imaginar que isto era outro livro, já! Depois, à medida que o ia lendo, …ia construindo em mim livros. Havia o livro da concepção da vida. E uma concepção dura! Alguém, um senhor, que diz a uma criada pega nas tuas coisas e esta noite vais dormir lá para cima. E há vida que nasce nisso. É sempre assim, tanto quanto eu vi, a concepção da vida é sempre abusiva?
ALA - … sabe, eu começo a dar-me agora conta de que talvez esse livro faça parte de uma…, não diria uma trilogia, mas uma trigonia talvez sobre Portugal. O Alentejo aí nunca é nomeado, mas claramente passa-se no Alentejo. Este que estou a escrever também não é nomeado, passa-se no Ribatejo… Hei-de fazer um mais acima… Sobre quem nós somos… Que, no fundo, quando há pouco me perguntou para quem escrevo,… eu escrevo para os portugueses… Cada vez mais. Com todas estas traduções, com tudo o que me tem acontecido, continua a ser para os portugueses que eu escrevo. Para as pessoas do meu país… Que é tão singular e tão rico ao mesmo tempo… Cada vez que dizem que Portugal é um país pequeno fico furioso, para mim chega-me perfeitamente e é enorme… E então era um pouco isso que eu queria: fazer uma espécie de retrato de todos nós, uma biografia de todos nós, uma autobiografia de todos nós. Cada um de nós é muitos, como o título do último livro… E em cada um de nós coincidem todos estes sentimentos contraditórios. E a nossa língua é maravilhosa para escrever. É muito mais fácil ser um bom escritor em português, do que em francês, por exemplo. O meu tradutor americano diz que há duas línguas excelentes para escrever: o português e o inglês, que é uma língua monossilábica. A nossa língua é tão maravilhosamente dúctil…, depois o problema é conseguir resistir às facilidades que ela lhe dá e transformá-la numa língua difícil…
MC - … já me abriu aqui um horizonte… Eu sabia que era uma zona rural nossa, mas não sabia aonde… Os tocanos iludiram-me!
ALA - A mim também…
MC - … descreve os tocanos… à tarde. Descreve uma tarde de tocanos. Descreve tocanos mortos. E iludiram-me. Então eu imaginei, deixei de poder imaginar o cenário... Os milhafres vieram a seguir... E onde há milhafres, se calhar há tocanos… E onde há tocanos e milhafres,… se calhar não era aqui… Não era este o meu universo que eu estava a ver retratado… E é…
ALA - Tudo se passa numa espécie de sonho. Como se o sonho fosse a única realidade possível… É muito curioso ter dito isso porque à medida que ia escrevendo o livro ia-me surpreendendo sempre. O livro foi feito sem plano e nos dias em que as mãos estavam felizes as palavras iam aparecendo…. E as coisas mais variadas e aparentemente contraditórias… Sabe, escrever é um processo doloroso, difícil e angustiado, como sabe tão bem como eu. Mas ao mesmo tempo há momentos de maravilhosa alegria quando a gente sente é isto, é isto, é a palavra… é isto que eu queria dizer. E que muitas vezes veicula sentimentos de que só parcialmente nos apercebemos. Há uma zona nossa que nos continua a ser completamente obscura, ou quase obscura para nós, e se eu conseguir atingir essa zona, esse núcleo de trevas que há em mim e pô-lo dentro de um livro, esse seria o desígnio, esse seria o desejo, esse seria…
(…)

 

Publicado por Fernando Delgado às 23:52
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