Quarta-feira, 1 de Outubro de 2008

E. Klein

 

«(…)
É o tédio da ostra que produz as pérolas.
José Bergamin
Não tenho medo de morrer. Só gostava de não estar lá quando isso acontecer.
Woody Allen
 
(…) Galileu deduziu que era um erro associar a imutabilidade à perfeição: o que é corruptível não é, apesar disso, imperfeito.
Para o pai da lei da queda dos corpos, a causa desta amálgama metafísica estava perfeitamente designada: ‘ aqueles que exaltam a incorruptibilidade, a imutabilidade, creio que o fazem devido ao seu grande desejo de sobreviverem durante muito tempo, e do medo que têm da morte. […] E não há dúvida de que a Terra é bem mais perfeita, sendo, como é, mutável, variável, do que se fosse uma massa de pedra, mesmo que um diamante muito duro e impassivel.’ A morte seria outra vestimenta do tempo, a mais discreta, mas também a mais enganosa de todas? A sua última roupa interior, em certo sentido?
A questão coloca-se porque o tempo parece ser simultaneamente o que faz perdurar as coisas e o que faz com que nada permaneça definitivamente: nós perduramos, perduramos, e depois um dia deixamos de perdurar. Toda a morte reenvia assim para o fenómeno do fim (algo termina), mas também para o fim do fenómeno (não se sabe o que acontece depois), conjugando o nada e o desconhecido. Daí o seu infinito mistério, para retomar os termos habituais. Nós compreendemos a corrupção, a transformação, a dissolução, percebemos que algo pode subsistir quando as formas passam, mas a morte avança sobre tudo isso, que continua rebelde ao pensamento, à ciência, ao discurso. A Física, pelo que lhe diz respeito, parece nada poder dizer. Demasiado preocupada com as leis imutáveis e relações perenes, demasiado agarrada à neutralidade do tempo, ter-se-á esquecido da morte?
(…)
Mais vale limitarmo-nos a uma dietética do instante que passa, confiarmos no favor do momento, no kairos. Eu vou morrer. Seja! É, portanto, agora ou nunca o momeno de entrar na existência, de colonizar o efémero. A noite virá muito em breve. Estas horas, estes minutos, estes segundos são acontecimentos. Acontecimentos irrisórios? Admitamos que sim. Mas este ‘irrisório’ foi, é e será muito exactamente eu.
É preciso aprender a amar o irreversível.»
 
Étienne Klein in O Tempo de Galileu a Einstein. Caleidoscópio.
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Publicado por Fernando Delgado às 00:58
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