Sexta-feira, 26 de Setembro de 2008

S. Márai

« (…)

E porque era terrivelmente bela, de uma beleza austera, virgem e completamente selvagem, um exemplar perfeito da Criação, que a natureza só uma vez consegue desenhar e fundir com tal perfeição, essa beleza, naturalmente, começou, a pouco e pouco, a influir sobre a atmosfera da nossa casa e da nossa vida, como um surdo e contínuo fundo musical. A beleza é, seguramente, uma força, uma força a par do calor, da luz ou da vontade humana. Começo a acreditar que nela exista também uma vontade: não se trata, claro está, de uma vontade cosmética, porque não aprecio a beleza que se conquista por meios artificiais, o que me lembra as técnicas de embalsamamento. Não, dentro da beleza, que no fundo se compõe de uma matéria frágil e perecível, flameja uma forte vontade. É somente graças às glândulas e ao coração, à razão e aos instintos, ao temperamento, graças, em suma, à própria energia moral e física, que uma pessoa consegue manter inalterada a harmonia, o equilíbrio de uma feliz e maravilhosa fórmula química que tem por efeito último a beleza. Repito, eu estava com trinta anos.
(…)
Porque a esperança é duradoura. É muito difícil resignarmo-nos ao desespero que é estarmos sós, terrível e desesperadamente sós. São muito poucos os que aguentam saber que não há remédio para a solidão das nossas vidas. Agarram-se à esperança, afadigam-se, refugiam-se nas relações humanas, e nestas tentativas de fuga não há uma verdadeira paixão, nem entrega, pelo que se escondem em mil canseiras e artifícios, trabalham imenso, ou projectam viagens, compram casas enormes, ou compram mulheres com quem não têm afinidades, ou começam colecções de leques, pedras preciosas, insectos raros… mas nada ajuda. Sabendo bem, enquanto agem, que nada ajuda. E sempre com esperança. Mas já sem saber em quê… - pois sabem que mais dinheiro, a mais completa colecção de insectos, uma nova amante, conhecer alguém interessante, a festa que resultou magnificamente e o garden-party ainda mais esplêndido, tudo isso de nada serve… Eis porque, prisioneiros da angústia e da perturbação, se agarram à ordem. Nos seus momentos de vigília, procuram repor a ordem nas sua vidas. Têm permanentemente “compromissos”, assuntos a tratar, ou uma reunião, ou um encontro amoroso… Só não podem ficar sozinhos por um instante! Nem por um instante, ver essa solidão! Rápido, alguma gente! Ou cães! Ou tapeçarias! Ou acções da bolsa! Ou esculturas góticas! Ou amantes! Rápido, antes de rebentar…
Assim vivem. Assim vivíamos nós.
(…)»
Sándor Márai in A Mulher Certa. Dom Quixote.
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Publicado por Fernando Delgado às 00:33
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