Sexta-feira, 19 de Setembro de 2008

Capitalismo

(... a reflexão seguinte é interessante - esquecendo alguns pormenores ideologicamente datados... -, mas vale a pena perguntar se esta intervenção do governo americano aconteceria se estivessem em causa “pequenas” empresas, “pequenos” bancos. Ou, de outra forma, a intervenção ocorreu devido à dimensão absurda que atingem algumas empresas; mas se a dimensão é absurda, se em momentos de crise precisam de uma intervenção do Estado, sem a qual põem em causa a vida de milhões de pessoas, porque são privadas?)

 
«Risco de Estado
A “nacionalização” das duas agências hipotecárias norte-americanas carinhosamente tratadas por nomes próprios – Fannie Mae e Freddie Mac – é um acontecimento histórico que obriga a duas reflexões imediatas.
Uma, sobre os efeitos desta intervenção na resolução da crise. Outra, de natureza mais filosófica, sobre se a decisão de Henry Paulson, secretário do tesouro norte-americano e antigo banqueiro de investimento – e que, como o próprio ontem admitiu, foi a decisão mais difícil de toda a sua carreira – terá sido o certificado de óbito do liberalismo.

Sobre o primeiro ponto, é evidente que esta intervenção, de valor superior ao PIB português, travou apenas queda num poço sem fundo à vista. Daqui a algumas semanas, quando os bancos voltarem a apresentar resultados, não merecerá mais do que um rodapé nas cronologias que os jornais dedicam periodicamente à crise. Esta, depende da recuperação da confiança, que não regressa com uma operação pontual. Isto não significa que estejamos condenados a uma nova Grande Depressão. Mas há ainda muitos buracos por destapar. O Citigroup, por exemplo, tinha no final de Março activos superiores a um bilião de dólares (isso mesmo, com 12 zeros) fora do seu balanço. No próximo ano, as regras contabilísticas obrigam-no a transferir boa parte desses activos para os seus livros. Da última vez que procedeu a uma operação desse tipo, assumindo 100 mil milhões, o Citi contabilizou prejuízos associados de 7 mil milhões. Os responsáveis do banco garantem ter lucros suficientes para cobrir qualquer eventualidade e esperemos que tenham razão. Mas só quando todas estas núvens se dissiparem é que a crise estará definitivamente pelas costas.
Quanto à questão filosófica, é verdade que as forças do mercado abusaram – e de que maneira – das liberdades que lhes foram dadas. É fácil usar a crise para demonstrar a falência da economia de mercado. Mas os exemplos de planeamento central já mostraram à saciedade serem infinitamente piores. Os danos colaterais destes sistemas contaram-se também em milhões, não de euros ou dólares, mas de vidas humanas. Além disso, estes argumentos esquecem um pormenor importante: as regras do mercado livre prevêem um papel para o Estado – o de regulador. Pode, assim, defender-se sem demasiado cinismo que a crise nunca teria atingido as dimensões actuais se o Estado tivesse cumprido de forma eficaz o seu papel.
Outra regra do liberalismo é a que diz que os ganhos são proporcionais ao risco que se está disposto a tomar. Alan Greenspan – o Estado –, com as sucessivas descidas nas taxas de juro após os ataques do 11 de Setembro, contribuiu para promover a ideia de que o risco deixara de ter custos associados. Era evidente que essa factura iria queimar muita gente para além dos banqueiros que se empanturraram no festim dos últimos anos. Foi isso que levou Paulson a intervir. Resta saber se, com a substituição da noção de que o risco não tem preço pela de que, no final, o Estado lá estará para pagar a conta, o secretário do Tesouro não terá criado o embrião de uma nova crise algures no futuro.»
Pedro Marques Pereira no Editorial do Diário Económico.com
Publicado por Fernando Delgado às 23:58
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