Quinta-feira, 4 de Setembro de 2008

Luís Peixoto

«(…) Falou-me do país onde os homens vendiam livros em canoas numa lagoa maior que dez cidades, disse-me que percebeu que o meu nome estava escrito num dos livros. Falou-me de um velho e desdentado vendedor de livros numa canoa, a pronunciar o meu nome no meio de uma língua indecifrável. O príncipe de calicatri sabia dizer obrigado em mais de noventa idiomas; sabia dizer o meu nome é príncipe de calicatri em mais de cinquenta idiomas; mas não sabia ler, nem sabia escrever. E repetiu o meu nome na voz daquele velho. Falou-me depois do país onde os meus livros eram queimados, onde os guardas perseguiam as pessoas que escondiam os meus livros dentro de caixas de sapatos, dentro de forros de casacos, dentro dos fundos falsos das malas. E disse que eu não imaginava a importância das minhas palavras no mundo. Eu, rodeado de silêncio, disse-lhe que não havia palavras que me pertencessem.

Perguntou-me o que é que eu escrevia nos livros. Respondi-lhe que me escrevia a mim. Escrevo-me. Escrevo o que existo, onde sinto, todos os lugares onde sinto. E o que sinto é o que existo e o que sou. (…)»
José Luís Peixoto in Uma Casa na Escuridão. Bertrand Editora.
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Publicado por Fernando Delgado às 01:39
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