Segunda-feira, 17 de Outubro de 2005

Mia Couto

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(Rio Alva, "emplumando-se ao modo de ser ave")
"Natural da água
A fonte: ninho da água. Dali ela se constitui, emplumando-se ao modo de ser ave. Primeiro se pintainha, levantando o bico faminto à chuva que desce. A água nasce de ser plantada? Ou de pedra que se converte, levando o tempo em suas mesmas lágrimas? Ninguém sabe, ninguém nunca viu. O parto da água não tem testemunha: aparecemos sempre depois. Quem percorre a fonte que escute primeiro seu chilreio fresco. Só depois rasteire os olhos entre a pedra e a erva. Deixe aí seu olhar pousado até que a alma, naquela dobrazinha onde ela se distrai de nós, se sinta molhada e mais que alagada: alaguada. Verá então como a água a si mesma se enche, abrindo as margens, soltando suas asas. Começa a viagem do rio sucessivo. O rio, caligrafia da água. Do alto, parece um sulco de metal transfluente. Limpo e solene. Mais perto se vê que, nas margens, se empoleira, contagiando-se de terra. O rio ora beija, ora morde a margem. Entre carícia e rasgão, se fazem seus incertos rumores de amante. Dentro dele se transportam ondulantes gazelas. Nesse tropel, o leito torna-se savana azul, África liquefazendo a sua carne térrea. O continente se oceanifica. Mas a água só despida está completa. Assim, da terra ela se distingue. A terra exige coberta, requer construção. Enquanto a água em sua própria pele se aconchega. Em tal nudez, nunca nenhum sulco se abriu, nenhuma ruga se desenhou. Os homens magoam o solo, cobrem de golpes o chão. Mas até agora nenhum foi capaz de ferir o rio e deixar cicatriz nele escrita. O rio da minha infância: sotaque da terra, pronúncia da própria vida. Esse rio transcorre não no mundo mas em mim. Como se eu fora natural da água e não de lugar terreno. Às vezes fui manso, diluindo os amargos recantos, consolando as arestas da minha idade. Outras, fundo e espesso, quase imitando o fogo. Então, em sua corrente me ensombro. E me duvido: afogar é morrer na água ou no fogo? Afinal, a fúria é breve. O rio simplesmente se lavava da morte, sacudindo destroços de mim que se espreguiçavam na torrente. A coragem do rio é o seu caminhar suicida para o mar. A bondade da água é o seu incansável retorno ao regaço da vida."
Mia Couto in Cronicando
Publicado por Fernando Delgado às 23:57
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