Sábado, 28 de Junho de 2008

A Casa Grande

(Conheço estas veredas, a rugosidade destes penedos de granito, estes rostos..., até os odores das lareiras, o bafo etílico do vigário, a pele crestada da tia chica, o latir do farrusco, o último bater de asas da perdiz, a sonoridade do vento e a claridade dos dias... Só nunca tinha ouvido falar deste livro, nem do autor...)

 
«(...)
A aldeia era uma rua inclinada de poente para nascente. Semelhava uma cobra rabiscada por mão de criança. Dela se separavam algumas ruelas. Em maior número para norte. Para sul, apenas duas, porque o declive era abissal. As casas, de pedra granítica, quase todas de um só piso, encostavam-se umas às outras, muitas com paredes meeiras, por poupança de dinheiro e de trabalho. A maior parte das janelas fechava-se apenas com portas de madeira de castanho, engelhada pelo tempo. Reticulados de vidro eram luxo dos mais abastados. Os janelos estavam enegrecidos, na parte cimeira, pelos fumos das lareiras. As chaminés eram telhas empinadas em pirâmide, saindo do telhado e apoiadas pelos extremos superiores. As concavidades, para dentro, encaminhavam o fumo que se evadia pelos tubos formados. Sem arremedos de chaminés, o fumo escapava-se pelas frestas entre telhas, saindo em ligeira pressão para os ares.
(...)
O Vigário, senhor de piedosas palavras, mansas e calculadas, era costumeiro e vezeiro a olhar donzela pejada de formas, dos calcanhares ao toutiço, demorando a viseira no altear das blusas, a sua admiração preferida. Mas não preteria fêmea casada, que entre as mulheres era seu apetite maior. Nas tentações da carne, era homem sem empecilhos. Bom apreciador de vinho e de galinha, não economizava sociedade quando vislumbrava naco de presunto ou tirada de chouriço. Duro nas práticas dominicais, clamando contra as desobediências aos santos mandamentos, tinha artes de sábio para surripiar às mulheres, sempre filhas, quer fidalgas, quer mulheres do povo, os segredos no auricular das confissões. Que os homens, esses eram mais refractários nas conversas penitenciais. Que a religião era para as mulheres.
(...)
Na adega do compadre António da Lameira, é que o Vigário se alambazava, depois de saborear um chá de cidreira e biscoitos de leite com que a comadre o presenteava. Então, descia pelas escadas de dentro, muito empinadas, o compadre à frente para o amparar, se necessário. Conversas. Os males do mundo, os males da terra, as desavenças, as intrigas e os mexericos. Que os homens de tudo falam. Ali, o sacerdote era ignorado. Assim o Vigário queria. Que as paredes, de grossas que nem muralhas, nã0 tinham ouvidos.
(...)
António da Lameira, homem bom, incapaz de tratar mal alguém, amigo do Vigário e temente a Deus, tinha extremas de terra com José Luís, homem dado a desavenças e a querelas. Em cada ano que José Luís lavrava a sua terra, lavrava mais um rego na terra de António da Lameira e mudava também um marco de pedra que definia o limite. Diziam ao António da Lameira que fizesse repor o marco no devido lugar, mas ele respondia que, um dia, o José Luís iria arrepender-se e tudo harmonizava. No ano seguinte, mais um rego era lavrado indevidamente pelo José Luís, na terra do vizinho.
(...)
Ali está a Tia Chica dos Padres, velha, ao rés do lume. As brasas a arrefecerem em cinzas mortas. Os pés resfriados, nas margens do sonho. É tempo de rezas reconciliadoras. A noite contínua e universal não está longe. A vida enrugou-lhe as peles. O tempo gelou-lhe a alma. A modorra acompanhou-a nas noites longas, de dúvidas e de traições.
O chá de tília, morno, esperava o senhor Vigário.
(...)
O Farrusco corria, farejava, quedava-se, orelhas ao alto, na procura de rumores ou de odores. Finório o cão, de tino afinado para coelho ou lebre, que levantava e abocanhava, para trazer ao dono, quando o tiro era certeiro. Para ser gente, só lhe falta falar, dizia o dono passando-lhe a mão pela cabeça.
O Farrusco dá sinal. Um pequeno latido e fareja o mato. O rabo a abanar. O láparo salta, logo corre. O cão, de orelhas levantadas, especado, espera. Treino de muitas horas, em cachorro. Apertado o gatilho, a escorva arde, a pólvora explode, o chumbo é cuspido. O Farrusco salta, crava os caninos na pele do coelho e corre com o troféu que coloca aos pés do dono, que exclama:
-Lindo Farrusco!
(...)»
 
A Casa Grande de Albano Mendes de Matos. Sopa de Letras.
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Publicado por Fernando Delgado às 00:30
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