Sexta-feira, 20 de Junho de 2008

R. Dawkins

 

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Há em cada aldeia um archote – o mestre-escola;
e uma boca que sopra para o apagar – o pároco.
Victor Hugo
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Num dado planeta, e possivelmente apenas num só em todo o universo, algumas moléculas que normalmente não formariam nada mais complicado do que um calhau, congregaram-se em pedaços de matéria do tamanho de calhaus e dotados de uma complexidade tão espantosa que são capazes de correr, saltar, nadar, voar, ver, ouvir, capturar e comer outros pedaços de complexidade igualmente animados; em certos casos, capazes de pensar e sentir, e ainda de se apaixonar por outros pedaços de matéria complexa. Agora compreendemos como é que o truque, essencialmente, se processa, mas só desde 1859. Antes tudo terá parecido, efectivamente, muitíssimo estranho. Hoje, graças a Darwin, é só muito estranho. Darwin pegou na janela da burca e franqueou-a de par em par...
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A ciência ensinou-nos, à total revelia da intuição gerada pelo processo evolutivo, que coisas aparentemente sólidas, como sejam cristais e pedras, são na realidade compostas por quase totalmente por espaço vazio. A ilustração mais corrente representa o núcleo de um átomo como uma mosca no centro de um estádio desportivo. O átomo seguinte encontra-se logo do lado de fora do estádio desportivo. Assim, a pedra mais dura, mais sólida e mais densa é realmente quase só espaço vazio, apenas interrompido por pequenas partículas, tão afastadas entre si que praticamente nem contam.
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Aquilo que vemos do mundo real não é o mundo real nu e cru, mas sim um modelo do mundo real, regulado e ajustado pelos dados sensoriais - um modelo que é construído de modo a ser útil à nossa relação com o mundo real. A natureza desse modelo depende do tipo de animal que somos. Um animal que voa necessita de um modelo do mundo de tipo diferente do de um animal que caminha, que trepa ou que nada. Os predadores necessitam de um modelo de tipo diferente do das suas presas, embora seja inevitável que os seus mundos se sobreponham.
(...)
No artigo sobre os “mundos possíveis” que citei acima, Haldane tinha algo relevante a dizer sobre os animais que habitam mundos dominados pelo cheiro. O autor refere que os cães conseguem distinguir dois ácidos gordos voláteis muito semelhantes - ácido caprílico e ácido capróico -, diluídos, ambos, numa parte num milhão. A única diferença entre os dois é que a cadeia molecular principal do ácido caprílico é dois átomos de carbono mais longa do que a cadeia principal de ácido capróico. Segundo Haldane, um cão deverá provavelmente ser capaz de, “pelo cheiro, colocar os ácidos pela ordem dos respectivos pesos moleculares, tal como um homem seria capaz de, por meio de notas, dispor uma sequência de cordas de piano pela respectiva ordem de comprimento”.
Existe outro ácido gordo, o ácido cáprico, que é muito parecido com os outros dois, salvo o facto de ter ainda mais dois átomos de carbono na sua cadeia principal. Um cão que nunca tivesse tido contacto com ácido cáprico não teria mais dificuldade em imaginar-lhe o cheiro do que nós teríamos em imaginar um trompete a tocar uma nota acima de tudo o que já tenham escutado nesse instrumento. Parece-me inteiramente razoável supor que um cão ou um rinoceronte conseguiriam tratar combinações de cheiros como se de acordes harmoniosos se tratasse. Talvez haja dissonâncias. Melodias talvez não, pois estas, ao contrário dos cheiros, são feitas de notas que começam ou terminam abruptamente, com um timimg preciso. Ou talvez os cães e rinocerontes cheirem a cores.
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Os milagres são acontecimentos extremamente improváveis. Uma estátua de Nossa Senhora pode acenar-nos com a mão. Os átomos que compõem a sua estrutura vibram, todos, para cá e para lá. Por existirem tantos, e haver uma preferência concertada quanto à direcção do movimento, a mão, tal como a vemos no mundo mediano, permanece firme como uma rocha. Mas podia dar-se o caso de os trémulos átomos da mão se moverem todos em uníssono, na mesma direcção e ao mesmo tempo. (...) Neste caso a mão mover-se-ia e nós vê-la-íamos a acenar-nos. Podia acontecer, mas as probabilidades contra são de tal maneira elevadas que, se tivéssemos começado a escrever o seu número nos princípios do universo, não teríamos ainda escrito zeros suficientes até hoje. O poder de calcular tais probabilidades - o poder de quantificar o quase-impossível, em vez de erguer as mãos em desespero - é outro exemplo dos benefícios libertadores que a ciência traz ao espírito humano.
(...) »
 
Richard Dawkins in A Desilusão de Deus
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Publicado por Fernando Delgado às 02:25
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Fernando Delgado

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