Sábado, 5 de Abril de 2008

Umberto Eco

«(…)
A primeira figura representava um homem, de ar de demónio, acorrentado a um rochedo no meio do mar, chicoteado pelas ondas. (…)
Do rochedo aproximou-se um navio (…) e dele desceu Ferrante, que libertou o condenado. Tudo era claro. No decorrer do seu navegar, Ferrante havia encontrado – como a lenda nos garante que seja – Judas recluso no oceano aberto, a espiar a sua traição.
- Obrigado, disse Judas a Ferrante; (…) – Desde que fui aqui subjugado, à hora nona de hoje, esperava poder ainda reparar o meu pecado… Agradeço-te, irmão.
- Estás aqui só há um dia, ou menos ainda? – perguntou  Ferrante. – Mas o teu pecado foi consumado no ano trigésimo terceiro do nascimento de Nosso Senhor, e portanto há mil seiscentos e dez anos…
- Ai, homem ingénuo – respondeu Judas - , há certamente mil seiscentos e dez dos nossos anos que eu fui posto neste rochedo, mas não é ainda e nunca será um dia dos meus. Tu sabes que, entretanto no mar que circunda esta minha ilha, penetraste noutro universo que corre ao lado e dentro do vosso, e que aqui o sol gira em torno da Terra como um cágado que a cada passo anda mais lento que antes. Assim neste meu mundo o meu dia ao início durava dois dos vossos, e depois três, e assim por diante cada vez mais, até agora, em que ao cabo de mil seiscentos e dez dos vossos anos eu estou ainda e sempre na hora nona. E dentro em pouco o tempo será ainda mais lento, e depois ainda mais, e eu viverei sempre a hora nona do ano trinta e três da noite de Belém…
- Mas porquê? – perguntou Ferrante.
- Mas porque Deus quis que o meu castigo consistisse em viver sempre na Sexta-Feira Santa, a celebrar sempre e em cada dia a paixão do homem que traí. O primeiro dia da minha pena, enquanto para os outros homens se aproximava o crepúsculo, e depois a noite, e depois a madrugada do sábado, para mim decorrera um átomo de um átomo de minuto desde a hora nona daquela sexta-feira. Mas abrandando-se ainda mais o correr do Sol, entre vós Cristo ressurgia, e eu estava ainda a um passo daquela hora. E agora, que para vós passaram séculos e séculos, eu estou sempre a uma migalha de tempo daquele instante…
- Mas este teu Sol também se move, e virá o dia, nem que seja daqui a dez mil ou mais anos, em que tu entrarás no sábado.
- Sim, e então será pior. Sairei do meu purgatório para entrar no meu inferno. Não cessará a dor da morte que causei, mas perderei a possibilidade que ainda me resta de fazer que o que aconteceu não aconteça.
- Como?
- Não sabes que a pouca distância de aqui corre o meridiano antípoda. Para lá daquela linha, tanto no teu universo como no meu, é o dia antes. Se eu, agora libertado, pudesse ultrapassar essa linha, reencontrar-me-ia na minha Quinta-Feira Santa, pois este escapulário que me vês sobre os ombros é o vínculo que obriga o meu Sol a acompanhar-me como a minha sombra, e a fazer que para onde quer que eu vá todo o tempo dure como o meu. Poderia então alcançar Jerusalém viajando por uma longuíssima quinta-feira, e chegar antes que a minha traição fosse realizada. E salvaria o meu Mestre da sua sorte.
- Porém – objectou Ferrante -, se impedires a Paixão nunca mais haverá a Redenção, e assim o mundo estaria ainda hoje preso do pecado original.
- Ai – gritou Judas chorando -, eu pensava só em mim mesmo! Mas então o que devo fazer? Se deixar de agir como agi, continuo condenado. Se reparar o meu erro, obsto ao plano de Deus, e por isso serei punido com a condenação. Então estava escrito desde o início que eu seria condenado a ser condenado?
(…)»
Umberto Eco in A Ilha Do Dia Antes. Difel.
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Publicado por Fernando Delgado às 01:41
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