Segunda-feira, 25 de Fevereiro de 2008

Filhos do Céu

 

(Sempre gostei dos livros escritos pelos homens da ciência, não (apenas) pelo conhecimento científico, mas porque acabo por descobrir que, por detrás daquelas mentes complexas (?), existe uma espantosa e inesperada simplicidade, qualquer coisa que nos diz que o mundo é simples desde que estejamos dispostos a fazer parte dele. Haverá forma mais inspiradora de enunciar esse mundo do que esta (Michel Cassé, astrofísico e investigador)?: A natureza não é mais do que um vago sentimento. E a teoria divorcia-se do afecto. Mas, por outro lado, o teórico encontra-se na madrugada do mundo. Dá os seus passos na inocência. A natureza não mente, mas também nunca comenta as suas declarações.)
 
«(…)
Michel Cassé – Esta coincidência é fértil e sem ela não há biologia.
Edgar Morin – A constituição de um átomo de carbono obedece a uma lei. Quer dizer que tudo o que surge sob um olhar como determinista, obedecendo a uma lei, sob um outro olhar…
Michel Cassé – Quer dizer que a desordem é uma ordem escondida.
Edgar Morin – É tão seguro assim?
Michel Cassé – Digamos que é uma aposta, de algum modo à maneira de Pascal ou ainda antinietzschiana e que fundamenta a física.
(…)
Michel Cassé - Constato, um pouco envergonhado, não ter respondido à questão fundamental que colocou sobre o simples e o complexo e sobre a entropia do universo. Mas antes de responder, queria partilhar a minha confusão. Estou chocado, e desconcertado até, pelo hiato existente entre a transparência da finalidade da ciência e a opacidade do método. Os princípios da análise estão entre as coisas mais bem aceites no mundo. Separar um todo complexo, uma coisa complexa, um problema complexo em diferentes fragmentos racionalmente juntos: este método assenta nos cenáculos científicos e utilizamo-lo todos os dias. Mas as técnicas físico-matemáticas que apontam para esta limpidez são tão esotéricas que não as podemos declinar em palavras. A física teórica dilui o mundo na clareza dos símbolos matemáticos. A natureza não é mais do que um vago sentimento. E a teoria divorcia-se do afecto. Mas, por outro lado, o teórico encontra-se na madrugada do mundo. Dá os seus passos na inocência. A natureza não mente, mas também nunca comenta as suas declarações. Exprime-se com relâmpagos, céus negros, árvores. Ora esta atitude, que consiste em querer colocar tudo em equação, em glifos, esta instância da escrita não pertencerá mais ao escriba do que à natureza? E impedirá que nos lancemos uns e outros numa espécie de introspecção cosmológica? Questão por questão, qual é esta doença do homem, e da qual sou vítima, que o empurra a cortejar infinitamente o infinito? Sofremos da doença da investigação. Que ser é este que se questiona sem cessar sobre a questão do ser? Será a cosmologia um desejo de teologia em vias de cura? Existem coisas bastante perturbantes. Como nos tornamos cosmologistas e porquê? Será que nos procuramos na imensidão cósmica? Isto seria demonstrar uma certa imodéstia. E, sobretudo, qual é o valor deste discurso? Qual o valor da verdade deste discurso? É único? Podemos, pelo menos, designar-lhe a pertinência? Resumindo, o que é o conceito de universo?
Edgar Morin -É a lição kantiana que já evoquei: a descoberta dos limites da Razão pura não esgota o desejo de metafísica, mas confronta-a com a necessidade de limites.
(…)»
Edgar Morin e Michel Cassé in Filhos do Céu. Instituto Piaget.
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Publicado por Fernando Delgado às 00:39
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