Domingo, 10 de Fevereiro de 2008

A. Lobo Antunes

(Há muitas maneiras de ultrapassar a irritação com leituras difíceis, mas aconselho a mais simples – comprar outro livro, do mesmo autor, de preferência com pequenas crónicas ou contos. É nestas coisas pequenas que às vezes se encontram os ténues traços que permitem outras leituras. Nestas crónicas de Lobo Antunes é fácil encontrar esses traços, às vezes como chaves de uma qualquer porta... Já aqui o disse, mas repito - Ontem não te vi em Babilónia, irritou-me..., é que eu gosto de Lobo Antunes... e agora reconheço que fui apenas preguiçoso e, por isso, desisti cedo demais...)
 
«Só vi Augusto Abelaira uma vez. Mário Soares, primeiro-ministro, tinha convidado quinze ou vinte escritores para tratar da mudança de Fernando Pessoa para os Jerónimos. Eu estava a começar a publicar e, de uma assentada, deparei-me com as celebridades em peso. Conhecia-as das fotografias dos livros e achei-as muito velhas e muito feias, desprovidas da dignidade majestosa das contracapas. Lembro-me de ter pensado
-Se fosse mulher não queria um destes caramelos nem de borla
e a obra de quase todos, que já não tinha em grande conta, desceu, dentro de mim, um degrau invisível. Os sofás da residência oficial eram imensos e moles. A certa altura, num deles, sentavam-se José Hermano Saraiva, Fernando Namora e Abelaira. Como eram pequeninos e as almofadas profundas só lhes via as cabecinhas, como maçãs poisadas numa prateleira, e os pés, sem alcançarem o chão, a dar e dar. Gaspar Simões tinha mais brilhantina que cabelo
(conforme eu suspeitava)
e Natália Correia, com uma boquilha do tamanho de uma muleta, varria a sala em gestos de Dama das Camélias. O seu peso ajudava-a a não levantar voo. Soprei para o Zé Cardoso Pires
-Que colecção, meu Deus
ele enfiou-me o cotovelo na barriga para me calar, um movimento mais amplo de Natália Correia disparou o cigarro da boquilha, e fiquei à espera de ouvir a explosão, lá ao fundo, quando a beata-bomba atingisse o tapete. Essa noite de Feira Popular veio-me à memória quando soube da morte de Augusto Abelaira. Fraco leitor dos seus romances sempre tive por ele, no entanto, admiração e estima. Havia neste homem, frágil, apagado, uma dignidade que me tocou.
(...)
Graças a pessoas como ele o meu trabalho tornou-se mais fácil: consistia apenas em erguer a casa sobre as fundações da seriedade intelectual que deixaram, com uma coragem e uma angústia sociais que, felizmente, me foram poupadas. Insisto na palavra coragem, porque é rara e preciosa. Como a palavra modéstia. Como outra que vou repetir: exigência. Porque, não tenhamos dúvidas, são as criaturas como Abelaira que tornam o nosso presente habitável, no que a humanidade diz respeito, nos ensinam a importância da honesta fidelidade a dois ou três princípios sem os quais não há literatura de espécie alguma: a da paciente conquista que cada livro é, e amargurada dor de o escrever. Aquele senhor pequenino, só cabeça e pezinhos a dar e dar num sofá cruel, era maior do que eu na estatura da sua condição. Tudo nos separava ao nível do ofício: concepções, ideias, factura. Tudo me aproximava dele na esperança da salvação pela palavra e do trabalho como razão de ser. Quando o jantar de Mário Soares acabou foi-se embora sozinho, a passo miúdo. Vestia mal, as cores não davam umas com as outras, calçava umas horrorosas botas amarelas, de atacadores gigantescos. E, no entanto, afianço que morava nesse sujeitinho uma discreta grandeza, de tal maneira que ao sumir-se na curva do jardim ainda continuava comigo. Parecia quase não existir e, por estranho que pareça, era necessário olhar para cima para o conseguir ver.»
 
António Lobo Antunes in Augusto Abelaira: Escritor (do livro Terceiro Livro de Crónicas. Dom Quixote)
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Publicado por Fernando Delgado às 01:58
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