Quarta-feira, 9 de Janeiro de 2008

K40

 (Para o Higino...)

 

«(...)
-Muito bem - disse -, você gosta de apostas? Eu gosto de apostas. Proponho-lhe uma. O senhor general deve ter lido, como eu li, quando era menino, a estória de Guilherme Tell. Dou-lhe agora esta arma, com uma única bala. Colocamos o seu filho lá fora, a uns cento e cinquenta metros de distância, com uma maçã na cabeça. Você acerta na maçã e eu vou-me embora, levo os meus homens, e ninguém se magoa. Você falha e eu mato-o a si e à sua família. Você recusa e é a mesma coisa.
-Nunca ouvi proposta mais estúpida! - soprou Pedro Paulo de Noronha. - Além disso não tenho maçãs...
-Tem limões. Podemos fazer isso com limões...!
-Disparate! O menino não conseguiria equilibrar um limão na cabeça...
-Certo. Então uma laranja. As laranjas são até maiores do que as maçãs, e, além disso, vêem-se melhor. Uma laranja é um alvo perfeito.
Saíram todos. Escolheram uma parede branca, um pequeno armazém de ferramentas, a uma distância considerável da casa, mas bem visível da varanda. Voltaram em silêncio. A mulher ergueu o menino nos braços e entregou-o ao marido.
-Aconteça o que acontecer, eu não te perdoo.
Severino Boa Morte acompanhou o menino ao armazém de ferramentas, encostou-o à parede, e depois colocou-lhe sobre a cabeça uma laranja de bom tamanho.
-Não te mexas -disse-lhe -, podes confiar no pai. Ele é um grande herói...
Ficou ao lado do rapaz, uns três metros à direita com a pistola na mão, para o caso de ter de o ajudar a morrer. Estava muito sério. Os outros homens rodearam Pedro Paulo de Noronha. Um deles carregou a Dragunov. Estendeu-a, com uma ligeira vénia, ao general:
-Boa sorte, cota!
Pedro Paulo de Noronha sopesou a arma. Segurando-a com a mão esquerda ergueu a direita no ar, calculando a humidade, a direcção e a força do vento. Levou a arma ao rosto, apontou à laranja, e então, num gesto brusco, desviou-a na direcção de Severino Boa Morte e disparou. A bala cortou a orelha direita de Severino, ricocheteou na parede e atravessou a laranja. Houve um breve instante de assombro. Um dos homens gritou:
-Caramba! E de tabela!...
Um segundo baixou a arma e aplaudiu entusiasmado. Os outros imitaram-no. O menino limpou o rosto, molhado de sumo, e começou a chorar. A mãe correu para ele. Severino Boa Morte veio andando devagar na direcção de Pedro Paulo de Noronha. O sangue jorrava da orelha aberta, num fio espesso, colorindo de vermelho a pele muito negra e o fulgor da camisa. Puxou o general pelo braço e soprou-lhe ao ouvido:
-Acho que você falhou, meu general, mas Deus acertou por si. -Suspirou: -Quem sou eu para contrariar os desígnios de Deus?
Leandro terminou de me contar o episódio. Levantou-se. Agarrou na prancha, colocou-a junto ao peito e lançou-se ao mar. Eu fiquei onde estava. Abri a mochila, escolhi uma sande de carne assada e comi-a com gosto. Fiquei a ver Leandro a brincar com as ondas. Ele era um bom contador de estórias. Mudava de voz, e de postura, de cada vez que um dos personagens entrava em cena. Quem lhe teria contado aquilo? Quando regressou, sacudindo a água do cabelo, fiz-lhe a pergunta:
-Como sabes essa estória ? Quero dizer, assim tantos pormenores...
O meu amigo olhou-me de frente:
-O que é que tu achas, meu parente? Eu estava lá!»
 
José Eduardo Agualusa in K40, do livro Passageiros em Trânsito – Novos contos para viajar
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Publicado por Fernando Delgado às 00:39
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