Domingo, 6 de Janeiro de 2008

Sinais

(Mesmo que a edição de hoje do Público possa parecer um manifesto anti-Sócrates, convém não escamotear algumas das realidades que estão por detrás da prosa corrosiva de V.P. Valente, de A. Barreto ou de Manuel Carvalho no editorial do próprio jornal. Importa-me pouco que eles tenham razão ou não, até porque o contraditório, neste caso, seria um puro exercício de retórica, mas já ficaria profundamente preocupado se os ‘alvos’ permanecessem impávidos e serenos, rumo a qualquer coisa que, começa a perceber-se, pode não fazer muito sentido…
Convém não menosprezar estes ‘sinais’… A arrogância e a prepotência são típicas de quem não tolera a independência dos outros, embora sejam também um eficaz meio de atingir objectivos - felizmente em democracia têm um período de vida útil muito curto!
Quando aos actos pouco pensados e naturalmente mal recebidos pelos destinatários, acresce uma tendência quase doentia para lhes adicionar um adereço moral e uma etiqueta regulamentadora, chega-se ao limite do exercício do poder. A partir daqui tudo é possível…, pelo que vale a pena parar um pouco para reflectir, deixando falsas moralidades e bastões regulamentadores à porta!)
 
«(…) Nasceram no I Governo constitucional e cresceram até agora na maior tranquilidade. Andaram pelo ‘soarismo’, pelo ‘cavaquismo’ (que os promoveu muito), pelo ‘guterrismo’ (que os deixou à solta), pelo fugitivo Barroso e mesmo por Santana (que protegeram e guiaram). São do PSD, mas muito amigos do PS; ou do PS, mas muito amigos do PSD. O que não quer dizer que seja o ‘centrão’. O ‘centrão’ é a cozinha dos partidos para a pequena gente: para o funcionalismo, para as câmaras, para os subsídios. Com outra envergadura (e outro apetite), este ‘clube’ vive de amizades particulares, de confiança mútua, de exclusividade. Rodam e voltam a rodar. Cá fora tudo muda, eles nunca mudam. Basta ver os nomes de que se fala para o BCP e a Caixa. Não os conhecem? (…) Num país normal não concorreriam à administração do maior banco privado duas listas ‘partidárias’: uma ‘do Governo’ e uma da ‘direita’. Num país normal, há coisas que simplesmente não sucedem e pessoas que simplesmente não existem.»
Vasco Pulido Valente
«(…) Não sei se Sócrates é fascista. Não me parece, mas, sinceramente, não sei. De qualquer modo, o importante não está aí. O que não suporta é a independência dos outros, das pessoas, das organizações, das empresas ou das instituições. Não tolera ser contrariado, nem admite que se pense de modo diferente daquele que organizou com as suas poderosas agências de intoxicação a que chama de comunicação. No seu ideal de vida, todos seriam submetidos ao Regime Disciplinar da Função Pública, revisto e reforçado pelo seu Governo. O primeiro-ministro José Sócrates é a mais séria ameaça contra a liberdade, contra as iniciativas privadas e contra a independência pessoal que Portugal conheceu nas últimas três décadas. (…)»
António Barreto
«(…) Pegando nas pontas de múltiplas iniciativas, percebe-se que o país está a ser comprimido por restrições destinadas a criar um homem novo na costa Oeste da Europa, um homem crente nas virtudes do Governo, saudável, civilizado e sem vícios. Sócrates não quer que sejamos apenas nórdicos na destreza com a tecnologia: exige-o também pela mudança de hábitos e costumes. (…) A questão que a nova moral pública da era Sócrates nos suscita é, porém, um problema de grau: não se trata apenas de penalizar os verdadeiros prevaricadores, mas a tentativa de nos impor uma sociedade asséptica, onde não se toleram erros involuntários, o direito ao vício do tabaco, colheres de pau ou bolos caseiros. O problema é que o Governo quer transformar à força da lei uma comunidade com manifesto défice de civismo numa turma de escola limpinha e bem comportada. Operações de engenharia social assim, já se sabe, são um perigo. (…)»
Manuel Carvalho, Editorial
Publicado por Fernando Delgado às 23:07
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