Quarta-feira, 5 de Dezembro de 2007

CI-CANALHA

(No Baságueda, com convite a uma visita e à leitura de textos irrepetíveis...)
 
 
«Em recente visita ao vizinho distrito da Guarda, o nosso PR manifestou-se preocupado com o despovoamento do interior tendo proferido autênticas pérolas de senso comum misturado com politicamente correcto. Eis algumas que retirei dos jornais:
"O número das crianças que nascem em cada ano é inferior ao número de portugueses que morre em cada ano. E, porque morrem mais do que nascem, em cada ano, há cada vez menos portugueses".
(Eu acho que devemos orgulhar-nos deste brilhantismo dedutivo do nosso Presidente)
"(…)muito preocupado por Portugal ser um dos países da Europa onde cada mulher tem menos filhos".
(Andam a falhar as mulheres portuguesas…)
“Por que é que nascem tão poucas crianças?
(Bolas! A essa não sei responder)
O que é preciso fazer para que nasçam mais crianças em Portugal?”
(Só perguntas difíceis, hoje. Hesito entre espreitar e copiar…Lá vou ter de admitir que sei menos do que um miúdo de 10 anos…)
"Eu não acredito que tenha desaparecido dos portugueses o entusiasmo de trazer vidas novas ao mundo".
(Pelos outros portugueses não posso falar, cada um que se manifeste. Para que conste, declaro solenemente que eu, português, mantenho o meu entusiasmo).
"É preciso alterar esta situação (…) não é apenas uma responsabilidade do Governo, da Assembleia da República, é de todos".
(O Senhor Presidente, por acaso, não está a sugerir aquilo que eu estou a pensar, pois não?, É que essa do todos, sinceramente, acho um bocado debochada…)
Agora (um pouquinho mais) a sério:
Fica bem ao Senhor Presidente manifestar-se ralado com a falta de canalha nas nossas aldeias ou, como ele lhe chama, com o despovoamento do interior. Eu entendo que ele devia até manifestar-se mais vezes incomodado com esse problema. Aliás, eu até acho que ele se deveria ter preocupado com a questão, e muito a sério, na década que foi de 1985 a 1995.
É claro que o mesmo é válido para os que lhe antecederam como PM e os que se lhe seguiram, porque esses também entram no rol dos responsáveis. Não foi agora que os homens e as mulheres do interior começaram a padecer de uma disfunção sexual colectiva. (A propósito, ou talvez não tenha nada a ver, o Mário Zambujal, em "À noite logo se vê" já glosava com o tema: "No tempo inteiro de quatro anos, quatro, não nasceu nenhuma criança, uma que fosse, menino ou menina, na aldeia do Roseiral". Estou capaz de o reler.) A raiz do problema está funda, nas sucessivas políticas concebidas em Lisboa e tomando como referência apenas Lisboa, para onde se reservaram sempre os melhores investimentos públicos. Foi à conta deles que sucessivas vagas da melhor mão de obra e da melhor força reprodutora do interior se transferiu do interior para a capital da Nação. Ainda está por fazer o estudo que calcule quanto é que Lisboa deve ao resto do país, sobretudo ao interior.
O grave da situação é que aquilo que parece ser sinónimo de progresso tem um reverso, do ponto de vista económico, e também social e ambiental. Pense-se nos efeitos do crescimento desmesurado e caótico da capital e nos efeitos que isso acarretou, e continuará, em termos de qualidade de vida (trânsito, insegurança, poluição, etc.) Mas a elite governante insiste. Provavelmente porque é na capital que estão os interesses maiores.
Ah! e os eleitores. Também é lá que se concentram os eleitores.
A canalha, essa vai escasseando nas aldeias. E que belas eram as aldeias coloridas com o riso autêntico da canalha...»
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Publicado por Fernando Delgado às 00:23
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