Segunda-feira, 3 de Dezembro de 2007

Laxness

“(…) Einer de Undirhlío era, por sua vez, crítico do mundo, e geralmente escrevia sobre os homens quando morriam, e buscava conforto na fé cristã, que ele pressupunha ser mais favorável aos agricultores numa outra vida do que nesta.(..)”
Halldór Laxness, in Gente Independente
 
(Ao ler Gente Independente - vou só no início, o fim ainda está a quase 400 páginas -, lembrei-me de repente de Torga, mas mais do que todos os outros, de Steinbeck e daquelas duas páginas finais de A Um Deus Desconhecido, que durante 30 anos me ficaram na memória - tenho o mau hábito de datar os livros e de os sublinhar. De facto, as mãos mortais do Alma Grande ou os filhos da Mariana (só dela!), em Torga, a angústia do padre perante a eminência da tempestade depois de anos de seca “vão despir a roupa toda (…) e rebolar-se na lama. Vão chafurdar na lama como porcos”, de Steinbeck, são pedaços de um conjunto que se vai construindo e crescendo perante uma única certeza: “os nossos efeitos são a única evidência da nossa vida”, tudo o resto é um imenso e tosco desenho de emoções que se vão construindo e destruindo sobre um pedaço de terra que meigamente nos vigia, e nos espera.
Os livros que têm os agricultores e as comunidades rurais como protagonistas, acabam sempre por revelar uma enorme rudeza e crueldade na abordagem das relações entre as pessoas, ou destas com o meio. É como se tudo tivesse que começar e acabar num dado momento, com uma sofreguidão pouco adequada à imagem idílica que às vezes se tem do campo… A verdade é que é mesmo assim – há entre a terra e o homem uma cumplicidade que, de tão intensa, se torna fatal. Não haja ilusões, estes pequenos mundos só aparentemente são simples e a rudeza dos homens é apenas a expressão do verdadeiro rosto da terra. Mas é também por isso que são os mais interessantes mundos do mundo!)
Publicado por Fernando Delgado às 23:55
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