Sexta-feira, 28 de Setembro de 2007

Ruiz Zafón

“(...) Uma das armadilhas da infância é que é preciso compreender para sentir. Na altura em que a razão é capaz de compreender o sucedido, as feridas no coração já são demasiado profundas. Naquela noite primitiva de Verão, caminhando por aquele anoitecer escuro e traiçoeiro de Barcelona, não conseguia apagar do pensamento o relato de Clara à volta do desaparecimento do pai. No meu mundo, a morte era uma mão anónima e incompreensível, um vendedor a domicílio que levava mães, mendigos ou vizinhos nonagenários como se se tratasse de uma lotaria do inferno. A ideia de que a morte pudesse caminhar ao meu lado, com rosto humano e coração envenenado de ódio, envergando uniforme e gabardina, que fizesse bicha no cinema, risse nos bares ou levasse as crianças a passear ao parque da Ciudadela de manhã e à tarde fizesse desaparecer alguém nas masmorras do castelo de Montjuïc, ou numa vala comum sem nome nem cerimonial, não me entrava na cabeça. Dando voltas àquilo, ocorreu-me que talvez aquele universo de cartão-pedra que eu dava por bom não fosse mais que uma decoração. Naqueles anos roubados, o fim da infância, como os comboios espanhóis, chegava quando chegava. (…)”
 
Carlos Ruiz Zafón in A Sombra do Vento
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Publicado por Fernando Delgado às 00:46
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