Sexta-feira, 9 de Março de 2007

Livros

“(…)
   - Há cinco anos que não via chover
   e os gansos do pântano que me faziam sonhar, quantas tardes na primavera os guardei em segredo, os imaginei nas ilhotas de caniços, os procurei visitar e apenas lama, vapores, umas salamandras na margem e olhos pedras também
   - Deslarguem-me
   resumindo como é vosso desejo um dos estranhos a erguer a porta da garagem
   (os gonzos, as molas, o abanar das placas)
   e eu lá dentro deitada
   (sob o automóvelou junto aos pneus, pouco monta)
   não a fugir-lhe, a observá-lo conforme os cachorros ao seu modo o observam também com receio do sacho com que o meu marido os ameaçava à distância
   (um homem vestido de senhora numa mesa de autópsia?)
   os pêlos do meu focinho molhados e a garupa a arredondar-se, agrada-me na minha idade ser capaz de um convite, duas e trinta um, duas e trinta e dois, duas e trinta e três, conservar meia dúzia de esperanças, ilusões, vontades, tornar a ver o mar por exemplo, franzir-me ao sol como a mulher do retrato ou descobrir-me viva sob os planetas extintos, escutar os comboios à noite e sentir-me feliz (…)”
A. Lobo Antunes in Ontem Não Te Vi em Babilónia
 
“(…) Prefiro caminhar pelo meio das coisas – dos três sou o que gosta mais desta cidadezinha. Iniciei a viagem para Woodstock aos nove anos e agora, ao fim de mais de vinte anos, cheguei. O meu irmão tinha razão – ainda há pessoas aqui. O concerto aconteceu a dez quilómetros daqui, num vasto campo coberto de erva que permaneceu praticamente inalterado. Um espaço vazio rodeado de árvores verdes e negras. Jonathan e eu tentámos nadar no lago cor de chocolate, enquanto Clare se sentou na erva com Rebecca, mas os mosquitos obrigaram-nos a voltar para o carro. (…)
Woodstock é aquilo em que as antigas cidades deviam tornar-se antes de o velho futuro ser cancelado e substituído por outro. Românticos barbudos continuam a dedilhar violas na praça do centro, continuam a imaginar-se como criaturas da natureza e aprendizes de mágicos. Sentadas nos bancos da praça, velhotas de cabelo grisalho frisado e solto abanam a cabeça ao ritmo das canções. Clare considera a cena patética e Jonathan não presta atenção a nada, mas eu aprecio a doçura destas ruas tranquilas e a alegre determinação das pessoas para viverem de modo obsoleto.(…)”.
Michael Cunningham in Uma Casa no Fim do Mundo
 
 
(Os livros estão difíceis! Ou se trata de uma história relativamente ingénua, apesar de bem contada, sem grandes sobressaltos e não sei se com grandes rasgos literários, ou de qualquer coisa extremamente complexa, quer na forma quer no conteúdo, tão exigente que me deixa de rastos. Percebo muito pouco de literatura – sou apenas um consumidor -, mas irrita-me o esforço que tive de fazer para ler Ontem não te vi em Babilónia. Que diabo, Lobo Antunes, é mesmo necessário torturar o leitor? Torturá-lo de tal forma que acaba por trocar as densidade das palavras pela ligeireza duma história. Esta Casa no Fim do Mundo é assim a minha vingança pessoal, uma espécie de fuga, com Woodstock a revelar alguns sintomas de velhice… Mas há sempre uma forma de ultrapassar estas coisas: voltar à livraria, vasculhar, até encontrar um novo ponto de partida. Este recomeço periódico ainda é a mais interessante de todas as histórias…)
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Publicado por Fernando Delgado às 00:55
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