Terça-feira, 29 de Novembro de 2005

Jostein Gaarder

“(...)
Voltaram a bater à porta.
- Tapamos as orelhas? – perguntou Alberto. –Talvez parem.
- Não, eu quero ver quem é.
Quando foi à porta, Alberto foi atrás dela. Lá fora estava um homem nu. Pusera-se numa postura muito solene, mas a única coisa que trazia vestida era uma coroa na cabeça.
- Então? – perguntou. – O que pensam os senhores das novas vestes do rei?
Alberto e Sofia ficaram mudos de perplexidade, mas isso não fez diferença para o homem nu.
- Vós nem vos inclinais! – exclamou.
Alberto ganhou coragem:
- É verdade, mas o rei está completamente nu.
O homem manteve a mesma posição solene. Alberto inclinou-se para Sofia e sussurrou-lhe ao ouvido:
- Julga ser uma pessoa muito distinta.
O homem fez uma expressão carrancuda.
- Esta casa exerce algum tipo de censura? – perguntou.
- Infelizmente – respondeu Alberto. – Aqui estamos completamente despertos e em plena posse das nossas capacidades mentais. Na condição vergonhosa em que se encontra não lhe é permitido passar a soleira desta pequena casa.
Sofia achou aquele homem, pomposo mas nu, tão cómico que desatou a rir. Como se isso fosse o sinal secreto, o homem com a coroa na cabeça deu-se subitamente conta de não ter nada vestido. Cobriu-se com ambas as mãos, correu para o bosque e desapareceu. Talvez se encontrasse com Adão e Eva, Noé, Capuchinho Vermelho e Winnie the Pooh.
Alberto e Sofia ficaram à porta. Finalmente, Alberto disse:
- Talvez seja melhor voltarmos a entrar. Vou falar-te de Freud e da sua teoria sobre o inconsciente.
(...)”
 
Jostein Gaarder in O Mundo de Sofia
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Publicado por Fernando Delgado às 23:01
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