Sábado, 18 de Novembro de 2006

Fim-de-semana...

“Uma estranha semiótica rege este país. Um português pergunta a outro: ‘aonde vais este fim-de-semana?’ O outro responde: ‘Fico por aí…’. 'Por aqui', 'por aí' designam lugares indeterminados, trajectos aleatórios, sem direcção nem fronteiras, mas bem precisos para os portugueses. Curiosamente, o 'por aí' refere-se a um pequeno território de deambulação (física e mental), ao mesmo tempo invisivelmente enclausurado e internamente livre. Nesse espaço reduzido, o sujeito vai passear ao acaso, cheirar o ar, deixar vir a si as coisas visíveis, sentar-se num café a ler o jornal, provocar sem dúvida calmos encontros esperadamente inesperados com outros que também andam 'por aí'.
(…)
Sob a política de avaliação há a ideia de que a emulação, a competição, a concorrência constituem a essência das motivações humanas, ou seja, que a imagem, que a imagem de si (com as componentes necessárias ao embate das vontades no mercado de trabalho: agressividade, espírito de vencedor, confiança em si, auto-estima, etc – toda uma panóplia de qualidades compondo o padrão de subjectividade ideal do novo mundo capitalista) representa o factor decisivo desencadeador do desejo de desenvolver e ultrapassar os outros. Importaram-se modelos estrangeiros da psicologia social e individual mais sumária, mais estritamente funcional, para os aplicar a sujeitos de sociedades, em muitos aspectos, arcaicas. O resultado é o falhanço desses modelos em Portugal. Porquê? Porque esses modelos de subjectivação dirigem-se sobretudo a estrangeiros ‘dessubjectivados’, ou melhor, subjectivados segundo funcionalidades tecnológicas extremas de onde se exclui o máximo do que, da subjectividade trivial, poderia impedir o rendimento mais elevado.
(…)
Num tal sistema, em que a não-acção é a regra, não se imagina um estado e uma administração sem burocracia. Porque esta constitui o melhor meio de adiamento e paralisação da acção. Ou, mais precisamente (…), ao adiar indefinidamente o agir, a burocracia toma a aparência da acção, criando a ilusão da sua efectuação. (…) Kafka disse tudo sobre a burocracia nas sociedades disciplinares. Com uma evidência luminosa, mostrou que nem era preciso dar um conteúdo à lei, para pôr um sujeito ou um povo a obedecer. Para tanto basta a burocracia com a violência anónima dos seus regulamentos, das suas falsas e contínuas inscrições, das suas sequências obrigatórias e absurdas. (…) A burocracia, o juridismo pertencem curiosamente àquele mesmo fundo que engendra a deambulação barroca do ‘ando por aí’. O desejo de flutuar, de não entrar na vida real; e o frenesim de tudo regimentar – o mínimo gesto, o mínimo sopro de existência – submetendo-os a uma regra.”
 
José Gil in Portugal, Hoje. O Medo de Existir.
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Publicado por Fernando Delgado às 02:36
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