Quarta-feira, 25 de Outubro de 2006

Fogos

(Na busca de outras coisas – à procura da 'ecologia da paisagem', que não é propriamente outra coisa… - encontrei este texto de Henrique Pereira dos Santos, de Agosto de 2005, que aqui reproduzo. Sei que estamos quase no Inverno, a “malhar em ferro frio”, mas vale a pena ler com atenção…)
 
“Falar de fogos no Verão nunca é grande ideia, é como decidir de cabeça quente. Falar de fogos no Inverno não é muito eficaz, é como malhar em ferro frio. Como o tolo na ponte sem saber para que lado ir, pensei ficar calado. Mas fui visitar áreas do Pinhal Interior que arderam em 2003. Já no ano passado as tinha visitado em Maio, não como os condutores que abrandam para ver os desastres dos outros ou os jornalistas que procuram sangue, escândalo, lágrimas e miséria em cada época de fogos, mas à procura de sinais de vida depois da primeira Primavera passar. Já anunciados em 2004 e claramente visíveis em 2005, vi sinais de vida na recuperação de que poderia vir aqui dar testemunho, falando das ervas, dos matos, do grau de cobertura do solo, da resistência do sistema às desgraças sempre anunciadas da erosão e empobrecimento. E poderia ainda dar testemunho das intervenções que vão aparecendo aqui e ali, sobretudo florestações pesadas de eucalipto, opção racional do ponto de vista do dono do terreno convencido da sua vocação florestal: florestar com uma espécie que produza antes que arda. Mas prefiro procurar perceber o que continua a ser para mim um mistério: por que razão se considera ser do âmbito florestal a questão dos fogos? Por que razão quando arderam 400 000 ha de território, se criou um fundo florestal e não um fundo rural?
O que vi não foi nenhum território de vocação florestal, mesmo que um dia tivesse sido a maior mancha contínua de pinheiro bravo da Europa e se chame "pinhal interior". O que vi foi um território, uma paisagem, um espaço sem vocação, sem destino, sem Norte. O que vi foi a vitalidade de uma paisagem que insiste em recuperar com as urzes, os medronhos, as giestas, as carquejas, as herbáceas anuais e uma intervenção que insiste na fatalidade de uma florestação tornada evidente por falta de comparência da mínima ideia coerente sobre o mundo rural. O que fazer com aquele espaço difícil, sem água e sem solo, naturalmente marginal para as produções agrícolas mais ricas?
Talvez valha a pena olhar um bocadinho para trás, perceber que o pinhal não predominava ainda há menos de cem anos, vale a pena perceber que a ocupação daquele território se fez a partir de umas hortitas no fundo dos vales e de cabras e cabras pelos montes acima, rapando tudo, apagando a importância natural do sobreiro na região. O pinheiro foi a forma encontrada para ocupar o espaço deixado vago pela emigração maciça dos que fugiam da fome e da miséria de uma economia da cabra, suportada na utilização sistemática do fogo de elevada frequência característica da pastorícia de percurso, deixando para trás um território cansado e sem capacidade produtiva. Esta florestação à base de pinheiro, que claramente não contou com os efeitos de longo prazo do abandono agrícola, foi acompanhada de um programa de correcção torrencial ainda hoje com testemunhos muito interessantes no terreno, e outras medidas de gestão territorial, admitindo que a floresta poderia suportar uma economia alternativa à da cabra e recuperar os solos.
Os limites desta opção são agora bem evidentes na violência dos fogos que vemos. Mais esforço neste caminho, trará mais de resultados que conhecemos: alguma riqueza criada pelo sector florestal, custos elevadíssimos, económicos e sociais, provocados pela necessidade de defesa em relação ao fogo.
Haverá alternativa? Talvez sim, mas implica tomar decisões agora, muitas delas bem fora da esfera das políticas florestais. Implica pensar que território alternativo poderemos ter naqueles quase ermos que pouca gente em Portugal conhece sem ser pelos nomes dos incêndios. Implica admitir que a gestão do fogo é um problema de gestão de paisagem, que o fogo é um dos modeladores das nossas paisagens, como são a agricultura, a pastorícia, a floresta, as infra-estruturas, etc. Quando um qualquer serviço público que trata de agricultura entende que os regulamentos comunitários não nos permitem apoiar a pastorícia de percurso nos locais e com a intensidade que a gestão do fogo ou a conservação de natureza exigirem, apesar dos espanhóis com os mesmos regulamentos o fazerem, não é apenas um problema de afectação dos recursos da PAC que está em causa, é todo um conceito de gestão de paisagem que é posto em causa. Ou de maneira mais geral, enquanto os recursos da política agrícola forem vistos apenas como instrumentos de gestão da produção agrícola e não também como instrumentos de modelação do território que queremos, enquanto o problema dos fogos for visto apenas como uma questão florestal e de produtividade da floresta ou de protecção de pessoas e bens e não também como uma componente do mundo rural que construímos, dificilmente haverá futuro para os nossas áreas mais marginais se não o de manterem um padrão de fogo crescentemente consumidor de recursos, sem contrapartidas positivas visíveis para as economias locais e nacional.
Partamos da ideia de recuperação territorial que estava subjacente ao programa de controlo torrencial executado pelos serviços florestais no hoje chamado pinhal interior. Redesenhemos as funções do território, começando por centrar todo o esforço de recuperação dos solos e da vegetação onde é mais fácil, no fundo dos vales, incluindo aqui todas as pequenas depressões em que só corre água quando chove.
É bem possível que num prazo relativamente curto consigamos um objectivo central: aumentar a diversidade paisagística, com a consequente valorização cénica da paisagem e aumento da diversidade biológica e desencadeando um processo de recuperação que se irá estendendo das áreas mais favoráveis para as áreas mais inóspitas. Se simultaneamente apoiarmos uma nova pastorícia de menor intensidade, usando o território numa lógica de gestão do fogo e não na lógica ancestral de alimentar o maior número de pessoas, se apoiarmos uma gestão florestal já não exclusivamente assente na ideia de vocação florestal do território, mas com objectivos de produção, incluindo o eucalipto, em algumas áreas, e objectivos de conservação e diversificação noutras, tirando partindo da excelente regeneração natural do sobreiro e do medronho, teremos definido um caminho mais sustentável.
E a prazo, talvez mais curto do que seria de supor, é bem possível que tenhamos resultado económicos bem interessantes: na valorização turística, actualmente fortemente limitada pela monotonia paisagística existente, na valorização do medronho e do sobreiro e, provavelmente o mais interessante no curto prazo, na possibilidade de ter resultados interessantes com a exploração cinegética. E, no que aos fogos diz respeito, ouviremos com certeza falar deles, mas provavelmente numa escala já socialmente aceitável.”
Publicado por Fernando Delgado às 00:09
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Fernando Delgado

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