Quarta-feira, 6 de Setembro de 2006

Um minuto e dezassete segundos...

“ (…) Se imaginássemos a história da Terra, com os seus 4500 milhões de anos comprimidos num dia normal de 24 horas, a vida começaria muito cedo, por volta das 4 horas da madrugada, com o aparecimento dos primeiros seres unicelulares simples, mas depois não avançaria mais durante as 16 horas seguintes. Só quase às 20.30, depois de terem passado cinco sextos do dia, é que o planeta tem alguma coisa concreta para mostrar ao universo, uma fina camada de irrequietos micróbios. Depois, finalmente, aparecem as primeiras plantas marinhas, seguidas, 20 minutos mais tarde, das primeiras alforrecas e da enigmática fauna ediacarana vista pela primeira vez por Reginald Sprigg na Austrália. Às 21.04 entram em cena os trilobites, seguidos mais ou menos imediatamente pelos simétricos seres de Burgess Shale. Pouco antes das 22.00, começam a surgir as plantas em terra. Pouco tempo depois, a menos de duas horas do fim do dia, surgem os primeiros seres terrestres.
Graças as uns dez minutos de clima ameno, às 22.24 a Terra está coberta das grandes florestas carboníferas cujos resíduos nos fornecem todo o nosso carvão, e manifestam-se os primeiros insectos voadores. Os dinossauros aparecem em cena, caminhando pesadamente, pouco antes das 23.00, e aguentam o balanço durante uns três quartos de hora. Aos 21 minutos para a meia-noite desaparecem, e começa a era dos mamíferos. Os humanos surgem um minuto e 17 segundos antes da meia-noite.
 
(…)
 
Como humanos, temos tendência para achar que a vida tem de ter um objectivo. Temos planos, aspirações e desejos. Queremos estar sempre a tirar vantagem de toda a existência inebriante com que fomos presenteados. Mas o que é a vida para um líquen? E contudo o seu impulso de existir, de ser é tão forte quanto o nosso – talvez mesmo mais forte, embora seja discutível. Se me dissessem que teria de passar décadas como uma formação peluda a forrar uma rocha nas florestas, julgo que me faltaria motivação para continuar. Mas aos líquenes não falta. Como praticamente todos os seres vivos, toleram qualquer dificuldade suportam qualquer injúria, só para usufruir de mais um momento de existência. A vida, resumindo, quer simplesmente existir. Porém – e aqui está uma ideia interessante -, na maior parte dos casos, não quer ser grande coisa. (…)”
 
Bill Bryson in Breve História de Quase Tudo
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Publicado por Fernando Delgado às 00:51
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