Domingo, 30 de Julho de 2006

Breve História de Quase Tudo

“Em primeiro lugar, para que o leitor esteja aqui agora, foi preciso que triliões de átomos errantes tenham conseguido juntar-se, numa dança intricada e misteriosamente coordenada, de forma a criá-lo a si. Trata-se de uma combinação tão única e especializada que nunca foi feita antes, e só vai existir desta vez. (…)
A razão pela qual os átomos se dão a este trabalho não é lá muito clara. A nível atómico ser o leitor, não é propriamente compensador. Ou seja, apesar da atenção que lhe dedicam, os átomos não se preocupam consigo – na verdade, nem sequer sabem que você existe. Nem mesmo que eles próprios existem. Nada mais são do que partículas sem consciência, e nem sequer têm vida própria. (Não deixa de ser ligeiramente impressionante pensar que, se você tentasse dissecar-se a si próprio com uma pinça, átomo a átomo, nada mais iria conseguir do que um monte de fina poeira atómica, da qual nem um grão alguma vez tivera vida, mas que, toda junta, era você). E, no entanto, durante todo o período da sua existência, a única preocupação dessas partículas será a de responder a um único impulso incontrolável: fazer com que você seja quem é.
O lado menos bom da questão é que os átomos são inconstantes, e que o seu período de dedicação a uma causa é passageiro. Muito passageiro mesmo. Até a longa vida humana não dura mais do que umas 650 000 horas. E quando esse modesto marco é ultrapassado, ou por volta dessa altura, por razões desconhecidas os seus átomos vão dispersar em silêncio, para se tornarem noutras coisas. E é o fim da história para si.”
(… 40 páginas depois…)
“Olhar para o passado é a parte mais fácil. Dê uma espreitadela no céu nocturno, e o que vir já passou à história, e há muito – verá as estrelas, não como elas são agora, mas como quando a luz as deixou. A verdade é que a Estrela Polar, nossa fiel companheira, pode muito bem ter-se extinguido no passado mês de Janeiro, ou em 1854, ou em qualquer outra data desde o séc. XIV, e nós simplesmente ainda não sabermos. O máximo que podemos dizer é que ainda estava a arder há 680 anos.”
(… 131 páginas depois…)
“Em termos mais simples, o que a equação (E=mc2) traduz é que a massa e a energia têm uma equivalência. São duas formas da mesma coisa: a energia é a matéria libertada; a matéria é a energia à espera de acontecer. (…) Talvez o leitor não se sinta particularmente robusto, mas se tiver um corpo de adulto mediano fique sabendo que, dentro da sua modesta estatura, contém nada menos do que 7x1018 jules de energia potencial – o suficiente para explodir com uma força equivalente a 30 enormes bombas de hidrogénio, partindo do princípio de que saberia libertá-la, e estivesse muito ansioso para demonstrar a sua teoria. Todas as coisas têm este tipo de energia encurralada em si próprias. Só que não sabemos libertá-la.”
(… um pouco depois…)
“Quando o poeta Paul Valéry perguntou uma vez a Einstein se usava um caderninho para registar as suas ideias, Einstein olhou-o com ligeira mas genuína surpresa. ‘Oh, não é preciso’, respondeu, ‘raramente tenho ideias”.
 
(… faltam 300 páginas…)
Bill Bryson in Breve História de Quase Tudo
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Publicado por Fernando Delgado às 01:34
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