Segunda-feira, 26 de Dezembro de 2005

O Zé da Estina

O Zé da Estina sentou-se na pedra granítica no alto do monte, puxou da onça e da mortalha e lentamente enrolou o cigarro. Não tinha pressa, nada à volta sugeria qualquer urgência. O tempo repousava embalado na leve brisa que suavemente lhe afagava os cabelos grisalhos. Lá no fundo, o rio parecia parado, adormecido, embrulhado num azulado forte. A águia imperial dava voltas junto ao céu, apenas por dar, como se fosse aquela a sua forma de descansar. Acendeu o cigarro. Duas fumaças, um suspiro longo e o olhar fixo no horizonte. Fixo, mas perdido: “Porque buscam os homens essa coisa inútil que é o amanhã? Porque acham que o podem condicionar!..., mas o que ganham com isso? Que posso eu acrescentar a este mundo, para que regresse aqui amanhã e o sinta melhor?” Desviou o olhar para o rio. “Nada. A este mundo não posso acrescentar nada. A única maneira de fazer qualquer coisa de útil por ele, é não fazer nada. É mantê-lo assim, dentro de mim, sem mim.” Levantou-se, procurou a águia que continuava a voar em círculos, agora mais perto do céu, e começou a descer a encosta. Junto ao rio, como uma cobra que se liberta da pele inútil, tirou lentamente o fato que depositou num pequeno montículo em cima das botas, e atirou-se à água, nadando para a outra margem. Saiu da água e dirigiu-se para uma pequena cabana, meia escondida por um salgueiro. Nu, na penumbra da cabana, sentiu-se estranhamente confortável e feliz... Lá fora, na outra margem, a águia pousada junto às botas, às calças e à camisa, guardava o seu Zé da Estina, como um deus que zela pelos seus ícones. Se o luar testemunhou qualquer metamorfose, acabou por escondê-la no amanhecer do dia seguinte. A verdade, porém, é que o Zé da Estina nunca mais apareceu e a águia tem agora o hábito de pousar na pedra de granito, com o olhar vivo de sentinela fixo na cabana abandonada.
Publicado por Fernando Delgado às 00:33
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