Sexta-feira, 10 de Março de 2006

Freud, o pionés e o prego

Numa das caminhadas pretensamente fisioterapáticas que costumo fazer pela cidade, numa noite fria e chuvosa, encontrei um velho debruçado sobre um daqueles cantos das ruas onde tudo se junta: folhas das árvores, papéis, terra suja… O velho aparentemente tinha encontrado o que procurava: uma folha escrita à mão, com a tinta desbotada e com alguma lama à mistura. Olhou-me naquele silêncio de significado universal – isto é importante! -, dobrou cuidadosamente a folha em quatro partes, meteu-a no bolso e afastou-se lentamente.
 
Nunca mais o vi, mas agora, uns dias depois, apetece-me revisitá-lo no meu imaginário – naquele sítio onde a realidade olha a sua sombra tentando encurtar o espaço que as separa… – e entro pela janela numa enorme sala onde o velho está sentado, dolorosamente curvado sobre um livro. Ao fundo, num placard pendurado na parede, consigo descortinar a folha com as letras desbotadas, ainda ligeiramente suja de lama, presa com um pionés. Olha-me, e o seu rosto revela-me um conjunto de inquietações a que só os velhos conseguem transmitir alguma tranquilidade e ternura. “Sabes, há coisas que não devemos perder, mesmo que seja uma folha suja… É bom deixar-mos rasto daquilo que pensamos!” Sentei-me e ele levantou-se e começou a andar pela sala. “A vida não é simples, mas é possível retirar-lhe a ambiguidade que quase sempre a torna insuportável… Aquela folha tem um texto sobre essa ambiguidade, essa espécie de hipocrisia oculta... Vou ler-ta.” Tirou a folha do placard, sentou-se a meu lado, olhou-a longamente e, sem a ler, sussurrou-me: “O acesso ao poder…”, olhou-me, mas claramente não esperava qualquer assentimento, e continuou “…aos pequenos poderes, torna-nos insensíveis a um conjunto de princípios de que nunca devíamos abdicar. É a sofreguidão do imediato, do amanhã que é já agora, mesmo que seja evidente que as coisas estão incompletas e imaturas. Não há um conjunto de regras que sustentem a acção e muito menos o conjunto teórico de princípios que a fundamente. Não, no exercício do poder o que é fundamental é a sua manutenção e é desta sustentação até ao limite da hipocrisia que te queria falar…”
 
Levantei-me e saí pela janela. Fugi! Fugi, porque conheço a história (a realidade aproximou-se da sua sombra…) da folha suja presa no placard a que se vão acrescentando pionés, como se acrescentam peões num campo de batalha, até ela se tornar eternamente estável. A maior ambição da folha é desprender-se do placard, mesmo que venha a parar numa sarjeta suja (nunca as palavras escolheram o local de nascimento e morte…), e a do placard é manter esta espécie de simbiose mumificante. Ambas caem no equívoco de se pensarem autónomas. Ambas dependem do pionés e tudo, em última análise, está sujeito à arbitrariedade de quem dispõe da capacidade de manipular estes objectos de cabeça desmesuradamente oca e um biquinho estúpido. E como esses manipuladores gostam de deixar as impressões digitais na cabeça colorida do pionés, meu deus!... Mas a sua suprema ambição reside na capacidade de transformar o pionés num prego, ferozmente espetado no centro da folha, assegurando a sua eterna estabilidade e imutabilidade. Mesmo adivinhando o obsceno da folha esventrada, a tentação é tão grande que há cabeças que não resistem… E torna-se num vício!
 
(Tudo isto não passaria de um divertido e inútil jogo, se não estivéssemos a falar de pessoas. Tudo isto se resumiria à distracção perante folhas sujas e letras desbotadas, se não estivessem em causa estruturas sociais frágeis. Tudo isto se resumiria à defesa de um conjunto de interesses, se não estivesse em causa os princípios básicos da vida em sociedade... É pena que Freud, que eu saiba, não se tenha debruçado sobre a influência do pionés e do prego - objectos fálicos, sem dúvida! - no exercício do poder…).
ps : Chamaram-me a tenção para o pionese … De facto a palavra correcta é pionés - espécie de prego de cabeça larga e chata, geralmente usado para fixar papéis. Do fr . punaise. (Dicionário da Língua Portuguesa, 2004. Porto Editora).
Publicado por Fernando Delgado às 23:06
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