Quarta-feira, 28 de Dezembro de 2005

Júlio Pomar e João Lobo Antunes

"(...) A decisão ética corre por isso o risco de se tornar um frio exercício de soberba moral, indiferente à face humana do sofrimento, surdo ao clamor angustiado de quem tem dúvida, desdenhoso do que alguém chamou os 'mundos morais locais'. Isto é para mim tanto mais chocante quanto sempre entendi a ética como a história das minhas inquietações. Tenho encontrado mais consolo e ajuda em obras de ficção, que me têm feito ver com mais clareza o caminho a trilhar, do que em muita prosa asséptica dos eticistas. (...) Para mim, por isso, a literatura desempenha um papel insubstituível na compreensão do sofrimento humano. (...)"
 
João Lobo Antunes in Sobre a Mão e Outros Ensaios
 
Há momentos que me ficam na memória e, mais cedo ou mais tarde, acabo por encontrar (admito que procuro!...) qualquer coisa que dê continuidade a esses momentos. Esse momento (uma hora, muito breve), foi uma entrevista da Maria João Avilez a João Lobo Antunes e Júlio Pomar, juntos, numa amena conversa. Ambos falaram do que fazem, do que pensam, e... das mãos, da forma como as utilizam, das diferenças e do risco que cada um corre ao utilizá-las: um na pintura, outro na neurocirurgia. Mas foi para mim evidente uma coisa muito simples: qualquer deles faz da sua profissão a síntese de um mundo em que a técnica (de pintar ou de operar) é meramente instrumental, emergente de uma matriz muito vasta de outras ciências e da teia que as une a pintura, a literatura, a música... Este livro é, de algum modo, uma continuidade dessa conversa e confesso que procuro na sua leitura também a busca para a sustentação de um conjunto de inquietações que desde há muito tempo se me levantam. Inquietações relativas a alguma dificuldade em entender a técnica como algo de abstracto, asséptico, desligada da alma, apenas agarrada ao mundo das coisas. Uma técnica que nos ignora, que nos transforma num número. Uma técnica pretensamente neutra e por issso possível de sustentar qualquer deriva moral ou ética....Um dia voltarei aqui !
Publicado por Fernando Delgado às 02:01
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