Sábado, 19 de Fevereiro de 2005

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(Recinto da Feira, Óleo s/tela, 60 x 50)
 
Sei que havia um enorme balão multicor a esvoaçar rente às nuvens; sei que as tendas ameaçavam fugir com o vento, mas que por artes mágicas se mantinham coladas ao chão; sei que as ofertas dos vendedores eram inverosímeis, mas credíveis; sei que a mistura de cores, sons, sabores e odores se transformavam num arco-íris permanentemente à minha frente, ou dentro de mim... Sei tudo isto. Mas sei que no meu imaginário este espaço esteve sempre delimitado, restringido a um conjunto de emoções, de forma a permanecer efémero, que é a única maneira de continuar real. Sei que agora fico para o fim da feira, para o epílogo, olhando o balão a esfumar-se, as tendas a ameaçarem desconjuntar-se, as inúmeras inutilidades sujas e despojadas a arrastarem-se pelo chão. Mas o que mais me prende a estes espaços de fim de festa, são os olhares esvaziados de promessas dos vendedores e os rostos cansados dos últimos resistentes. Qualquer deles, na sua essência, parecem Quixotes emergindo de uma luta indecifrável por entre panos de tenda rasgados, à procura de um fim heróico... Ah, e as farturas! As farturas...
Publicado por Fernando Delgado às 00:03
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