Terça-feira, 1 de Março de 2005

Paisagem

"[...]

Nelas foram surgindo os lugares, as aldeias, as cidades, as quintas, os pomares e hortas, as capelas e cruzeiros que justificaram que a paisagem primitiva de subsistência se transformasse gradualmente numa paisagem cultural. (...) A agricultura tem por fim uma meta impossível de se atingir - a da sua existência depender da competitividade dos preços - como se fosse a produção o único objectivo que justifica tão importante actividade. O nosso país, bem depressa, será um corredor industrializado entre Braga e Setúbal, onde se concentrará a população, vivendo grande parte em condições marginais infra-humanas, e um imenso ermo no interior destinado ao recreio de ricos e às monoculturas extensivas florestais se prosseguirmos na aplicação do actual modelo de desenvolvimento económico. (...) Os índices de crescimento económico deixaram de ter sentido como indicadores do bem-estar e da justiça. A morte da paisagem rural e a desumanização da cidade são diagnósticos seguros de que é necessário modificar todo o actual sistema económico e social. Um país onde a paisagem morre é um país onde a paisagem desaparece e com ela a primeira razão de ser da independência, que justifica a existência duma comunidade e da sua cultura. A degradação estética e biológica da paisagem é o diagnóstico seguro de que a comunidade, que a deveria viver, se encontra em diluição e decadência. O homem, transformado pela civilização industrial num mero instrumento de consumo, desligado do trabalho pela máquina e pelo computador, abandona a criatividade que o liberta e individualiza como pessoa. As sociedades contemporâneas, interessadas mais no ter que no ser, deixaram de entender a paisagem e de respeitar o funcionamento e a complexidade dos sistemas ecológicos.

[...]»


Paisagem. Edição da DGOTDU, 1994. Conjunto de textos de diversos autores (E. Castro Caldas, F. Caldeira Cary, André Espenica, A.A. Monteiro Alves, I. Alves de Araújo, M. Raposo de Magalhães e G. Ribeiro Telles), lidos em sobressalto. O texto citado é de G. Ribeiro Telles.
Publicado por Fernando Delgado às 18:05
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