Quarta-feira, 20 de Abril de 2005

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"E se me pegares na mão e me levares para aquele lugar a que chamas utopia, eu vou. Não porque acredite nele, mas simplesmente porque deste lado já não existe nada. Nem mágoa, nem tristeza, nem desejo, nem sequer raiva. Aqui é cada vez mais o presente, sem o ontem ou o amanhã. Não acreditas? Então fala-me do teu mundo, dos teus sonhos... Sentes-te mal, como um minúsculo grão de areia?!..., não precisas dizê-lo, basta olhar para ti. Pensa um pouco!... Conta-me o que fizeste das laranjas que seguravas nas mãos, encostadas ao peito.
Sei que a lua adormeceu nas águas do lago e os teus cabelos esvoaçaram levemente. Da alma não me lembro, mas do corpo retenho o sorriso cúmplice do delito. Resta um perfume fugaz do teu gesto irreflectido - porque deitaste as laranjas ao lago, assustando os patos? Não te interessa, eu sei. Estás contente com o teu mundo, com as tuas pequeninas coisas, com os teus inúteis interesses. Mudaste, estás na idade da razão - ainda te lembras de Sartre? -, por isso sou benevolente. Era-me indiferente, se fosses só tu. Mas não! Estamos todos assim - acomodados, amorfos, quietos, velhos.
Sei que os tempos mudam e que a memória é uma coisa precária, um pouco como a espuma das ondas que se desfaz lentamente na areia da praia. Mas, quer queiras quer não, no fim resta sempre uma cicatriz que dói e, ingénua e lenta, condiciona ainda o teu pequenino mundo de interesses. Eu sei, por mais que o negues, que os dias são longos, mas resguarda neles um pedacinho e pensa no que fizeste dos princípios que dizias abraçar para toda a vida - passa um leve olhar sobre essa cicatriz! Não, não falo dos chavões que vorazmente fomos aprendendo em noites intermináveis de discussão e que nunca percebi muito bem se vinham da Revolução Francesa ou de um qualquer Maio intemporal. Falo das emoções, do sim em silêncio, do olhar cúmplice, do perfume das palavras. Falo da voracidade dos princípios e da angústia dos interesses.
Não, não me fales em ideologia - um conjunto de princípios não forma uma ideologia -, era só uma mão-cheia de princípios, suficientes para definir o nosso pequenino mundo. Percebes o que quero dizer? És capaz de me explicar a diferença entre esquerda e direita? Não, não me fales da União Europeia - é uma desculpa! E não me venhas com os argumentos do costume - a moeda única, o desenvolvimento do país ... É discurso televisivo, é discurso de interesses e nem quero saber se a discursos diferentes correspondem ou não os mesmos interesses (ou vice-versa, que sei eu?). São interesses e isso basta-me! E não me digas que o teu mundo cresceu, que já não é pequenino, porque é uma ilusão causada pela dispersão por inúmeras coisas inúteis - não confundas o teu espaço de emoções com o teu espaço de ilusões e não deixes que um se misture com o outro. Separa as águas, faz um apelo à diferença... A propósito, ainda roubas rosas nos jardins? Eu sei que estamos em final de século, provavelmente na sua década menos interessante, mas nada nos obriga a esta homogeneidade amorfa - lá por termos todos acesso à mesma biblioteca nada nos obriga a ler os mesmos livros e a ter as mesmas referências. Lembras-te que nos ensinaram a levar porrada e a dar a outra face - é um bom exemplo moral, dizia-se. Mas há sempre um dia em que nos irritamos e damos também um bofetão. Faz bem acontecer isto - é como acordar lavado, ainda que admitamos que o homem é um ser que erra, que mente mesmo quando ama, que sofre mesmo quando está feliz, que se torna incompleto quando não falta nada.
Tu dizias-me que o sonho é o lugar onde só cabe uma pessoa de cada vez. Eu nunca acreditei, por isso te utilizei para dizer aquilo que não sou capaz de exprimir no singular. Mas tu conheces-me. Sabes que vou ficando - não sei se por hábito se por opção -, até ao dia em que, de tanto olhar quem passa, adormeça e aceite o mundo tal como ele é. No dia seguinte, claro, porque o presente ainda é uma plataforma de rosas embrulhadas na saudade diáfana. Lembro-me que escolheste o mês da luz opaca para fugires à procura de outros mundos. Não te censuro, porque sei que juntos (nem imaginas a multidão que somos) faremos do céu - que é bem o silêncio da terra morna - um espaço enorme, florido e povoado de emoções. Como costumavas ler de um qualquer dos teus muitos papéis: "Gosto dos meus erros! Não quero renunciar à liberdade deliciosa de me enganar."
 
(Texto publicado na Gazeta do Interior, em Junho de 1997, sob o título "A voracidade tranquila dos sentidos" e que, por uma enorme preguiça..., aqui reproduzo. Até amanhã!)
Publicado por Fernando Delgado às 00:03
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