Terça-feira, 22 de Outubro de 2013

António Lobo Antunes

«A MINHA COLEÇÃO DE MOMENTOS

 

         Não gosto de escrever em lugares confortáveis nem com vista bonita da janela: é numa cadeira dura, virada para a parede, que dou o dó de peito. Agrada-me trabalhar em cozinhas, desvãos, quartos de hotel com mesas tortas e gravuras o mais feias possível: tanto me faz o lugar desde que não seja agradável. Durante anos escrevi num tampo de mármore partido, agora faço-o num tampo de vidro, graças a Deus nem sempre limpo, num lugar gelado no inverno e cheio de correntes de ar no verão: até hoje driblei a pneumonia. Também não me rala onde moro, nem o que como, nem o que visto. O que me importa então? Assim de repente importou-me quando o comboio em que ia, na Alemanha, parou à noite numa estaçãozinha deserta e escutei, na chuva, um clarinete a tocar numa cave invisível: pareceu-me que de repente entendia a vida e o mundo. Que música seria aquela, quase sem nexo, aflita entre as copas das árvores, a explicar-me a mim mesmo? Ou antes não música: um fiozinho de som. Ainda deve estar, perto de Dortmund, sempre que um comboio fica por ali à espera, no inverno, e a chuva aumenta a sombra dos abetos. Importam-me os corvos da Ucrânia sobre os campos de milho. Uma criança descalça, com dois cavalos coxos, entrevista perto de uma igreja antiga, na Roménia, o descer uma colina na direcção de um riacho: de quando em quando um dos cavalos lambia o pescoço da criança. Um bêbado do Cazaquistão a cantar sozinho, amparado a um muro, e a barba dele, comprida. Uma senhora de idade numa esplanada de Paris, em cuja cara permaneciam ainda, aqui e ali, esquecidos, fragmentos de uma beleza irrecuperável, semelhante aos restos de cartazes que vão empalidecendo e rasgando-se até muito depois das eleições. Certas vitrinas suburbanas que nos oferecem bonecos de loiça

         (pastoras, anjinhos, Dons Quixotes)

         poeirentos e patéticos, alinhados numa orfandade de abandono. Esses cães que se deixaram longe e voltam passados muitos dias, humildes, magros, à casa onde moraram, demorando-se no quintal sem coragem de entrar. Um urso de peluche, meio vazio de recheio, a convidar-nos

         - Abraça-me

         com o olho de vidro que sobeja. As ancas vaidosas, para cá e para lá, dos barquinhos ancorados, tão femininos nos seus meneios de cintura e, já agora, certas ondas que não acabam nunca e nos levam com elas. A  poetisa argentina Alfonsina Storni, cansada de esperá-las, resolveu entrar no mar ao seu encontro: que remédio tiveram as ondas senão ficar-lhe com a boina, com o resto todo, com os versos que não teve tempo de compor: se calhar os meneios de um dos barquinhos são seus. E podia continuar a lista do que me importa durante horas, mencionando, é claro, a frase, que sempre me comoveu, de Charlotte Bronte na agonia, a apertar a mão do marido

         - Não vou morrer pois não? Temos sido tão felizes…

         ou Columbano Bordalo Pinheiro, um dos meus pintores, a emergir, por instantes, da sonolência final, espantado

         - Ainda estou vivo?

         coisas destas, amargas ou alegres, que me têm ajudado a entender o que sou, como sou, quem sou, e me iluminam quando escrevo: bastam-me como lâmpadas, e também permitem ver para dentro fundos de poço, caves, baús, o gramofone de campânula a que se dava corda com uma manivela empenada, colocava-se a agulha romba, de aço, no disco riscado, e a voz de Caruso, entre guinchos e estalos, a tremelicar a Bohème, enquanto a tia Madalena, lá em baixo, regava o jardim. Jack Dempsey, pugilista miraculoso, numa revista amarela. Um busto de Chopin, quebrado. Um exemplar sem capa do diário da escritora George Sand, informando a certa altura, a propósito do também escritor Merimé

         «Tive-o esta noite. Não é grande coisa…»

         (No original: «J’ai eu Merimé ce soir: C’est pas grand-chose…»)

         e o cheiro da relva molhada a subir até mim ao fim da tarde. Copos azuis facetados onde me ofereciam um golinho

         (com recomendação

         - Só um golinho)

         do anis que eu rondava na despensa como um gatuno. Deviam poder guardar-se estes momentos no banco, a render juros. E receber o extrato ao fim do mês: em lugar do dinheiro um clarinete à chuva, uma onda, a boina de Alfonsina Storni e o cheiro da erva molhada, o pobre Caruso a tentar soltar-se do disco. Se o gestor da conta fosse esperto informava-me «este mês tem mais uma onda», «até ao fim do ano espero conseguir-lhe dois clarinetes», ou «em seis meses, tal como os mercados estão, o tal Merimé não vai desiludir a senhora». E no exemplar sem capa do diário, em lugar de

         «Tive-o esta noite. Não é grande coisa…»

         lerei

         «Tive-o esta noite. É do caneco!»

 

António Lobo Antunes. Quinto Livro de Crónicas. D. Quixote,  2ª ed. pp 241-243.

Tags:
Publicado por Fernando Delgado às 00:05
| Comentar post
Patilhar
Fernando Delgado

Pesquisar

 

Posts recentes

«Human»

Outono

MEC sobre Trump

À espera de Godot

De Niro, sem maquilhagem

Guterres

Arturo Pérez-Reverte

Achamentos na Costa Vicen...

(Gente) sinistro(a)

«Someday this war's gonna...

BREXIT (adenda)

Brexit

Carla Bley

A Seiva da Raíz

Regresso à «Tabacaria»

Abril

... às portas do casino

a força da canção ao vivo...

O casino!...

Retrospectivas

Avec les temps...

Escravatura...

Umberto Eco

As ondas do Albert

Volta-de-lua

Tags

aprender

canções

estórias

interiores

leituras

notícias do casino

outros olhares

peanuts

pintura

rural

todas as tags

Arquivos