Quarta-feira, 11 de Setembro de 2013

... descodificando o rural

«[…]

         É hoje consensual que o desenvolvimento deve ser construído associando e tomando como agentes das iniciativas as populações locais. Contudo, esta fórmula exige um esclarecimento complementar sobre os critérios para avaliar os processos a promover ou, noutros termos, qual deve ser o referencial cultural, social e económico dos projectos: a modernização óbvia e aparentemente indiscutível, ou o enraizamento nas sociabilidades, hábitos, comportamentos e instituições tradicionais das comunidades.

         Um caso estudado por Milando (2003), em Cabinda, clarifica este debate. Trata-se de uma aldeia que se abastece de água de um rio que está a uma distância considerável. Face a esta situação, surgiu a iniciativa de construir um chafariz na aldeia. Contudo, esta opção modernizadora não tomou em consideração que o caminho de alguns quilómetros que as mulheres tinham de percorrer, desde o rio à povoação, a transportar água à cabeça, não era apenas uma incómoda distância mas era também uma passarelle onde se teciam, de modo privilegiado, relacionamentos entre os homens e as mulheres da aldeia. Milando comenta ainda: “Em África, existem, hoje, muitos exemplos de projectos desta natureza que redundam em fracasso, pois uma vez instalados os chafarizes, as populações alvo ignoram-nos, preferindo continuar a percorrer os longos quilómetros de sempre, a fazer uso da água que é colocada junto das suas casas”. Ou seja, o desenvolvimento tem de definir-se em função de quadros culturais, sociais e económicos das populações.

[…]»

Fernando Oliveira Baptista in O Destino Camponês. Ed. 100LUZ, pp.123-124.

Publicado por Fernando Delgado às 22:21
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