Sexta-feira, 24 de Junho de 2005

Ruralidades

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As opções político-institucionais têm uma clara influência nas dinâmicas dos espaços rurais e consequentemente no seu futuro, mesmo que aparentemente se restrinjam a aspectos de natureza mais sectorial. Por exemplo a recente reforma da PAC é frequentemente alvo de críticas muito profundas, com o argumento de que o desligamento das ajudas promove o abandono agrícola. Sendo a agricultura uma essência dos espaços rurais, tudo indica que estamos de facto perante um incentivo político-institucional a um processo que, só por si, já tinha tendências de seguir este rumo, alterando-se assim apenas o ritmo com que se chegaria a essa aparente inevitabilidade. Tenho grandes dificuldades em compreender este ponto de vista, muito pessimista, ainda que reconheça que é muito difícil contrariá-lo, sobretudo quando se assiste a uma erosão muito acentuada dos principais factores que influenciam o rural. De facto, a par do despovoamento humano verificou-se uma forte queda da densidade de actividades e de actores, quebrando-se as dinâmicas sociais, culturais e económicas que, por definição, sustentam o rural. Mas defender que a reforma da PAC e o desligamento das ajudas são responsáveis por este problema, no que à agricultura diz respeito, é ignorar o que foi a agricultura com as ajudas directas (não desligadas). É ignorar que existia uma pseudo-agricultura baseada num conjunto de decisões subsídio-dependentes, na maior parte dos casos afastadas de qualquer racionalidade técnico-económica e ambiental. É ignorar que esta agricultura fragilizava o rural, na medida em que tendia a marginalizar-se num dogma de dimensão física, desfazendo-se da dimensão do trabalho e, por isso, dum conjunto de relações de vizinhança indispensáveis à sustentabilidade do rural. Mas obviamente existem consequências que deverão ser analisadas e avaliadas ao nível do território, constituindo a agricultura, nas suas funções económica, ambiental, patrimonial e cultural, entre outras, apenas um elemento dessa análise, ainda que determinante. Isto é, o que me preocupa não são as consequências directas na agricultura de uma contestada reforma da PAC, mas os efeitos que poderão ter nas dinâmicas rurais e na consequente arquitectura dos seus valores, imprescindíveis a um coerente ordenamento do território. Também por isso, voltarei aqui...
Publicado por Fernando Delgado às 02:00
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